Palavra tetraedro

SÓLIDOS

 

Boa tarde meninos, meninas, zumbis, abantesmas e outros seres que neste dia porventura se encontrem no recinto.

Hoje a Tia Odete não está para brincadeiras, portanto é bom todos se aquietarem e pensarem em se comportar como se fossem crianças normais e não criaturas vindas de um filme de ficção científica dos anos cinquenta.

Quero lhes mostrar, em primeira mão, uma coisa que vai incomodar as minhas colegas pedagogas. Sabem, aquela turma que diz que crianças não devem aprender a ler antes dos vinte e um anos, ou coisa parecida. E que, com isso, conseguem que elas não leiam nunca.

Olhem aqui, enquanto vou tirando da bolsa alguns objetos que fiz em casa mesmo, com cartolina, cola, tesoura e muita paciência.

Prestem atenção, que eu estou lhes apresentando os Sólidos Platônicos. Que assunto para o Maternal, hein?

Calma, depois vou falar sobre cada um. Mas antes vou contar que, uns quatro séculos antes de nossa era, havia um filósofo na Grécia que se chamava Arístocles. Mas ficou conhecido pela posteridade como Platão. Platon queria dizer “de ombros largos”. Não, Valzinha, ele não malhava, era assim de nascimento mesmo.

Ele usava muito a cabeça, como compete a um verdadeiro filósofo, e um belo dia descobriu algo muito interessante. Percebeu que, em nosso mundo tridimensional só existem cinco corpos, ou sólidos, que tenham faces iguais entre si.

Parem com essa agitação, ou eu não conto mais nada!

Essas crianças são difíceis de controlar, mas gostam muito de origens de palavras. Parece mentira que assim dê para lidar com elas.

Para começar, devo dizer que sólido vem do Latim solidus, “firme, completo, inteiro”.  Em Geometria, quer dizer uma figura que tem partes em todas as três dimensões de altura, largura e profundidade Ela é “limitada em todos os sentidos”, no jargão; mas não quebrem demais as cabecinhas com isso por ora.

Faustinho, quem lhe deu licença para ir à lousa e desenhar? Ah, você queria mostrar figuras geométricas. Desenhou rapidamente uma coisa que parece uma bolacha Maria amolecida e uma casa sem telhado esmagada por um terremoto…

Ah, trata-se de um círculo e um retângulo, é? Bem, mesmo dando um considerável desconto, reparem que essas são representações bidimensionais dessas figuras; elas não podem existir nesta nossa dimensão, só podemos dar uma ideia delas ao desenhar.

Olhem para meu material. Vamos começar com esta figura que lembra uma pirâmide, palavra que parece que vem do Egípcio pymar, “pirâmide” mesmo.

Pois este é o tetraedro, do Grego tetra, “quatro”, mais hedra, “assento, lugar que se ocupa, superfície”.

Isso, Valzinha, ele tem quatro superfícies triangulares iguais. Como você está esperta hoje!

Como? Foi porque esse é o número de namorados que pensa ter quando for maior? Ah, bem, tem gente que até tem bastante mais. Hein? Ao mesmo tempo? Tá bom, fique caladinha que senão eu não lhe mostro este aqui, que é o…

Não, senhores! Isto não é um quadrado! Um quadrado tem duas dimensões, isto é um cubo, do Latim cubus, do Grego kybos, “cubo, dado, vértebra”. E tem também um nome menos leigo, que é hexaedro, do Grego hexa, “seis”, mais hedra.

O que ele tem de quadrado são as faces, todas iguaizinhas.

Antes que a Valzinha tenha outras idéias sobre namorados, vou apresentar o octaedro, de octa, “oito”, mais… Está bem, Patty, não precisava gritar que agora vinha o hedra. Aliás, em homenagem a você, não vou mais citar essa palavra nesta aula. Agora feche a boquinha e preste atenção.

Olhem para ele aqui, ele lembra duas pirâmides grudadas pela base.

Certo, Aninha, ele é formado por dois tetraedros. Que turma que está atenta hoje! O que terá acontecido?

E apresento para vocês, saindo diretamente de minha bolsa que já está tão velha, coitada, que mereceria ser substituída se certos aluninhos se reunissem para comprar uma nova, mas não pensem que estou dando idéias… Onde é que eu estava mesmo? Ah, sim, ia mostrar o dodecaedro. Olhem só, ele tem apenas faces pentagonais e lembra uma bola de futebol sem curvas.

Ele tem doze faces, do Grego dodeka, “doze”. Quieta, Patty!

E agora o irmão mais complexo dos cinco, o icosaedro, com vinte faces, do Grego eícosi, “vinte”.

Calma, Lary, fale mais devagar. Quer saber se inventaram já os sólidos não-platônicos? Claro que sim, menina.

Por exemplo, temos o cone, que é a forma aproximada de uma casquinha clássica de sorvete. Essa palavra vem do Grego konos, “pinha”, pela forma.

O cilindro vem do Grego kýlindros, , “rolo”, ligado a kýlindein, “rolar”.

O paralelepípedo deriva do Grego parallelepipedon, “corpo com superfícies paralelas duas a duas”, de parallelos, (de para allelois, “um ao lado do outro”, de para-, “ao lado”, mais allos, “outro”), mais epipedon, “plano” (de epi-, “sobre”, mais pedon, “chão, piso”). Complicada de explicar esta, não?

E por hoje é só, quem comeu regalou-se, quem não comeu ficou com fome.

 

Resposta:

Geometria

Você se lembra de quando lidava com Geometria na aula? Não lhe pareciam quase extraterrestres palavras como cateto, hipotenusa, secante, isósceles?

Pois está na hora de saber a razão de ser dessas palavras que a maioria decorou às cegas.

Pode ser que chegue tarde, mas vale a pena. Certamente se isso tivesse sido ensinado junto com a matéria propriamente dita seria mais fácil entender e gravar na memória o significado daqueles palavrões.

GEOMETRIA – para começar.

Vem do Grego geometria, “medida da terra”, de geo, “terra”, mais metrein, “medir” (de metron, “medida”, derivado do Indo-Europeu me-, “medir”).

Essa matéria teve início a partir da necessidade de definir com precisão os terrenos cultiváveis, quando a espécie humana passou a se ocupar com a agricultura. Se isso não fosse feito, haveria muita briga e disputa de terrenos. Ou seja, a Geometria ajudou a evitar mortes.

Os métodos usados para fazer essas medidas passaram de uma utilidade tão direta para outras, às vezes menos palpáveis mas igualmente importantes.

Uma dessas utilidades é definir figuras geométricas, das quais citaremos algumas.

CÍRCULO – vem do Latim circulus, “pequeno anel”, diminutivo de circus, “arena redonda”, do Grego kyklos, “redondo, circular”, do Indo-Europeu sker-, “dobrar, curvar”.

Esta palavra originou também o nome dos cíclopes, os gigantes com um só olho redondo que Ulisses teve que enfrentar na sua volta para casa. O nome deles se refere ao formato do olho, não ao fato de ele ser único.

QUADRADO – significa “o que foi cortado seguindo ângulos retos”, do particípio passado quadratus, do verbo latino quadrare, “tornar simétrico, esquadrar”, de quattuor, “quatro”.

RETÂNGULO – foi o nome que deram a um quadrado espichado, já que ele também tinha quatro ângulos retos. Estes são os que medem noventa graus.

POLÍGONO – nós o definimos como uma figura de duas dimensões com vários lados, mas o nome grego se ateve aos vários ângulos definidos por esses lados. Formou-se a partir de POLYS-, “vários, muitos”, mais GONIA, “ângulo”.

TRIÂNGULO – este tá na cara, né? De tri, “três”, “três vezes”, mais “ângulo”. Mas e esta palavra? Olhem só:

ÂNGULO – aqui há uma história bem interessante. A palavra vem do Latim angulum, “esquina, canto, dobra”. É o diminutivo de uma base Indo-Européia ank-, “dobrar”.

Pois bem, desta fonte surgiu o nome de um lugar, hoje conhecido como Holstein, na Alemanha; em épocas remotas ele se chamava Angul, porque as terras formam um ângulo bem pronunciado no mapa. Em conseqüência, o povo dali passou a ser chamado de Angli, em Latim.

No século 5, não tendo nada melhor para fazer, eles invadiram e colonizaram algumas regiões da Grã-Bretanha. Como o dialeto deles casualmente foi o primeiro a ser registrado de forma escrita, o lugar acabou sendo conhecido como “a terra dos Anglos” – nossa velha conhecida Inglaterra.

Ou seja, apenas com esta historinha temos o encontro de Geometria, História, Geografia e de uma parte do Português. Para quem ensina, é uma beleza.

ISÓSCELES – este triângulo com dois lados iguais se chama assim de isos, “igual” em Grego, mais skelos, “perna”, aqui com o sentido de “lado”.

ESCALENO – tendo os lados desiguais, este triângulo era chamado, em Grego, skalenos, “desigual, desparelho, grosseiro”, de skallein, “cortar, limpar vegetação”.

EQUILÁTERO – este está barbada demais, não é? Vem do Latim aequi, “igual”, mais lateralis, “relativo a lado”, de latus, “lado”. Tem três lados iguais entre si.

TRIÂNGULO RETÂNGULO – todos sabem que é aquele que tem um ângulo reto. Falar nele é apenas desculpa para lidar com os estranhos nomes dos seus compnentes, como veremos a seguir.

HIPOTENUSA – o lado mais longo de um triângulo retângulo se chama assim devido ao Grego hypotenousa, “o que se estende debaixo (do ângulo reto)”, já que esse é sempre o lado oposto a tal ângulo. O nome se forma de hypo, “debaixo”, mais teinein, “esticar, alongar”.

CATETO – os outros dois lados do triângulo retângulo têm esse nome do Grego káthetos, “descido, abaixado de maneira reta”, de kathíenai, “fazer descer, empurrar”, de kata, “para baixo”, mais híenai, “enviar, mandar”. Isso tudo porque eles “caem” no ângulo reto, se os projetarmos para o centro da figura.

NORMAL – é a palavra usada para descrever uma linha que é perpendicular a outra, o que intriga muita gente.

Vem do Latim normalis, “de acordo com a regra”, originalmente “feito de acordo com o esquadro do carpinteiro”, que era chamado norma e era usado para marcar ângulos retos. Este esquadro faz parte do símbolo da Maçonaria há muito tempo.

Passou a designar tanto “o que está na perpendicular” como “o que segue o padrão”. Uma situação normal é a que está de acordo com o que se espera. A definição de normas legais é indispensável para que uma sociedade funcione.

TANGENTE – é aquele linha que toca noutra apenas num ponto, sem a cortar. Vem do Latim tangens, “o que toca”, do verbo tangere, “tocar”, de uma fonte Indo-Européia tag-, “tocar, manusear”.

A palavra tangente no sentido geométrico foi usada pela primeira vez pelo matemático dinamarquês Thomas Fincke, em 1583.

SECANTE – é a linha que corta, que passa através de outra. Vem do Latim secans, “o que corta”, do verbo secare, “cortar”. Também foi lançada pelo dinamarquês ali de cima, na mesma ocasião.

ELIPSE – do Grego elleipsis, “falta, defeito”, do verbo elleipein, “não alcançar, deixar de fora”, provavelmente porque a figura parece que tenta mas não consegue chegar a ser um círculo.

Essa é a forma das órbitas planetárias. Na Antigüidade, elas não podiam ser calculadas direito porque se assumia que elas eram circulares.

ESPIRAL – do Latim spiralis, “o que se curva que se torce”, do Grego speira, “volta, torcida”, de uma fonte Indo-Européia sper-, “dobrar, curvar”.

CUBO – está na hora de saber mais sobre os nomes de algumas figuras sólidas. Esta, por exemplo, vem do Grego kybos, “dado, vértebra”, do Indo-Europeu keu-, “torcer, virar”.

PRISMA – era prisma tanto em Latim como em Grego, querendo dizer “algo serrado”. Vem do verbo grego prizein, “serrar”.

O uso dessa palavra em Óptica começou em 1612, depois que se descobriu que um cristal cortado em determinada forma conseguia decompor a luz branca em seus componentes coloridos, separando as freqüências de onda.

PIRÂMIDE – em Latim, os turistas que iam ao Cairo chamavam esses monumentos de pyramis. Em Grego também. Não há certeza absoluta, mas parece que a palavra vem do Egípcio pymar, “pirâmide” mesmo.

TETRAEDRO, HEXAEDRO, DODECAEDRO, etc. – o primeiro elemento dessa palavra indica o número de faces (em nosso exemplos aqui, quatro, seis, doze). A parte final vem do Grego hedra, “base, assento, superfície plana onde se pode sentar”, do Indo-Europeu sed-, “sentar”.

Esta fonte gerou também catedral, o local onde fica a cátedra – cadeira – de um bispo, de kata, “para baixo”, mais hedra.

Resposta:

Catedral

 

Noite escura como todas as do bairro, mesmo as que têm lua cheia.

Edifício Éden. Cinco andares, elevador estragado, escadas cheias de lixo, vizinhança de meter medo.

Um vulto coloca a cabeça para fora da porta do edifício. Olha para um lado, olha para outro. Nada enxergando de mais suspeito que o normal, ele se afasta com passos rápidos para a esquerda.

Vamos segui-lo. Ele usa uma gabardine enorme e um chapéu enterrado na cabeça. Seu rosto fica nas trevas, suas mãos nos bolsos. Seu olhar percorre de um lado para o outro a calçada e a rua com pouco movimento.

No bairro todos sabem quem ele é: X-8, o detetive etimológico, um paladino da causa da origem das palavras e da sua própria conta corrente. Ele sempre anda de modo disfarçado por hábito profissional, para não chamar a atenção.

Esta noite ele se dirige para a Pizzaria do Porco. Ah, ele deve estar com vontade de fazer uma reconfortante janta de pizza com um queijo bem torradinho, regada com um bom refrigerante.

Mas não, ele passou direto pela frente da Pizzaria. Sua garçonete preferida, Odila, o vê passar como uma ratazana apressada e nem tem tempo para chegar até à porta e assobiar um fiu-fiu.

A intrigante figura segue por mais umas duas quadras. Pára, olha ao redor de maneira escandalosamente disfarçada. Abaixa-se para amarrar o sapato direito.

Levanta-se, olha ao redor e se abaixa para amarrar o outro sapato. Anota mentalmente que esta manobra é sempre mais convincente quando os sapatos são de amarrar.

Ergue-se, puxa um lenço do bolso, seca o suor do chapéu, deixa-o cair e o recolhe enquanto olha ao redor. Encosta-se à parede de um prédio, põe as mãos nos bolsos, suspira com ar de tédio, sempre perscrutando as imediações.

Quando finalmente ele se convence de que não está sendo seguido, entra rapidamente pela porta do prédio, que é ainda mais mal encarado do que o Edifício Éden.

Vai até o fundo do corredor, onde se situa o elevador. Ele é pequeno, tem lugar para apenas duas pessoas e ostenta por fora uma placa com os dizeres “NÃO FUNSIONA. NÃO INCISTA”.

Inesperadamente, ele entra no elevador. A porta de madeira se fecha atrás dele.

Ele olha ao redor para ver se está realmente sozinho naquele espaço restrito e começa um ritual muito estranho: assobia bem alto o começo do terceiro movimento da Sétima Sinfonia de Beethoven, acompanhando-se ao sapateado.

Depois de fazer isso por trinta segundos, ele repete a música, só que de trás para diante, enquanto sapateia de trás para diante também.

Com um estalido, o painel do elevador fronteiro à porta se abre: era uma porta disfarçada, de cuja existência poucas centenas de pessoas sabiam. Ele passa para o outro lado.

Ali atrás é a Kasa da Kópia, o estabelecimento de cópias do bairro. Eles fazem tudo que é tipo de cópia, em preto e branco, colorido, “banners”, placas de acrílico, impressão em camisetas, até bordados.

São extremamente hábeis, mestres em copiar direitinho qualquer tipo de etiqueta. Daí o nome da loja, sugerido pela Numerologia. Isso lhes garante uma clientela certa entre os industriais do bairro.

São eles os responsáveis pelas marcas de aparelhos eletrônicos, roupas, bolsas, tênis e muitos outros artigos que passam silenciosamente pelo bairro e ativam a sua economia.

É por esta razão que eles tomam especiais cuidados em relação à entrada da loja. A Polícia há muitos anos desistiu de entrar no bairro, mas nunca se sabe. Os donos do próspero estabelecimento preferem prevenir a remediar.

Os donos são um casal de destaque na vida social local, Pescoço e Mortadela. Ele é conhecido assim por que é magro que nem pescoço de galinha fugida.

E ela tem esse apelido (embora não saiba) por apresentar notável semelhança com o dito embutido. Principalmente quando faz calor e ela coloca uma daquelas blusas amarradinhas nas costas. Algumas línguas mordazes dizem que é também porque a inteligência dela em nada fica a dever à de uma mortadela, mas ninguém fez ainda um estudo comparativo de QI para comprovar o fato.

Eles se dão muito bem; trabalham juntos, comparecem a todas as festas do Clube do bairro, adoram ouvir pagode, tomar cerveja e comer até arrebentar. Evidentemente, um casal feliz.

Com eles trabalham diversas pessoas da família. Hoje há uns três ou quatro rapazes, todos de bermudão, camiseta e chinelos, cabelo raspado e toucas de lã, que cumprem as suas tarefas entre olhares cheios de suspeita para o recém-chegado.

O casal, lidando com números não-contabilizados à mesa, cumprimenta cordialmente o detetive.

Ele é um cliente especial; embora seja um grande pão-duro e gaste pouco ali, a sua presença dá uma aura séria, intelectual, à Kasa das Kópias.

Hoje ele está precisando de cópias de um pequeno dicionário, que passa às mãos brancas e rechonchas de Mortadela.

– Uma de cada? Preto e branco ou colorido? – pergunta ela.

Ele chega a pensar numa resposta mordaz, mas se controla e diz, muito sério, que hoje prefere em preto e branco.

Enquanto ela faz as cópias, Pescoço vigia os seus movimentos. Ela tem uma curiosa capacidade de esquecer a ordem dos gestos simples de apertar botões na copiadora.

Mas desta vez tudo dá certo, depois que eles conseguem retirar os papéis que ficaram trancados nos cilindros da máquina. Pescoço entrega as cópias, caprichosamente acondicionadas numa sacola de supermercado pouco amassada, daquelas reservadas para os clientes importantes. Recebe o pagamento em moedas e se despede do detetive.

Este sai e se vê dentro do elevador. Espia pela janelinha deste, não vê ninguém e sai do prédio, andando apressado.

Ele acha bárbaro todo este ritual para fazer umas simples fotocópias; ele toca a sua alma de amante do mistério e antigo leitor de histórias policiais.

A sua imaginação é fértil. Enquanto ele caminha, vai imaginando acontecimentos perigosos envolvendo um bravo homem da lei, uma bela, rica e assanhada cliente, um grupo de bandidos que não resistem à inteligência aguda que ele tem e aos socos rombudos que ele distribui.

Está no ponto em que já derrotou dezessete criminosos, descobriu onde é que eles escondiam o pônei de estimação dela e está recebendo o pagamento de seus honorários. O pacote em euros (dólares são coisa ultrapassada!) já está no bolso, agora é a hora de um extra por “serviços prestados além do cumprimento do dever”, segundo ela.

O négligé preto de renda voa para cima de um sofá; ele dá um passo entusiasmado para a voluptuosa cliente e o seu pé afunda numa poça de água até o tornozelo.

Praguejando, ele olha para baixo e vê a poça, o lixo pelo chão, papéis espalhados…

Diacho, mais uma vez ele se deixou levar pela imaginação! Se continuasse mais um pouco, ia dar de cara com o muro que fecha este beco. Volta-se para sair, com o pé fazendo sons líquidos, e vê a entrada do beco tomada por vultos iluminados por trás, quietamente ameaçadores, sem possibilidade de fuga.

Puxa, isso já tinha acontecido aquela vez em que tinha ido à Pizzaria do Porco. Felizmente os vultos pertenciam a palavras pobres e sem má intenção, das quais ele se livrou graças ao seu papo. Devem ser elas de novo.

Avança para elas, confiante, e elas se dispõem de modo a fechar a saída. Todas estão enroladas em capas longas, à moda antiga. Não parecem os mesmos seres que da outra vez. A figura da esquerda aponta para ele com um gesto vigoroso.

Ele sente que desta vez não houve acaso. Ele fora seguido. E para boa coisa não era, pois ninguém é encurralado num beco para dar autógrafos.

Quem estava apontando para ele afrouxa a capa e ele vê que era um palavra mesmo, Acólito. Ela fala, voz grave:

– Precisamos de você. Temos uma consulta para fazer. Secreta, secretíssima.

Com as pernas trêmulas, entre temeroso e aliviado, X-8 não consegue responder.

A palavra da direita, que abrira a capa também, para mostrar que era Sacristão, diz:

– Aqui há uma palavra que não pode ser vista andando por um lugar de vícios e pecados como este seu bairro. Você vai nos dizer a etimologia dela e jurar manter segredo.

Ainda sob o efeito do susto, mal podendo respirar, o detetive fica imóvel, o que é tomado pelas palavras como uma calma concordância vinda de um sujeito impassível.

É então que a palavra do meio abre a capa e se mostra em seu esplendor de arcos, gárgulas, vitrais, pompa e incenso: Catedral! Ela fecha o tecido de seda púrpura farfalhante, vira as costas e se afasta imediatamente, em passo majestoso.

Acólito diz:

– Aguardamo-lo amanhã neste mesmo beco e nesta hora. Seu documento e seu silêncio serão regiamente recompensados – olha para os lados rapidamente e acrescenta:

– Não sai aí uma origenzinha dos nomes dos auxiliares também? Dá prá dar essa forcinha, gente boa? – e dá uma cotovelada no braço de X-8. Este reúne as suas forças, dissipadas pelo susto, e mal consegue levantar um trêmulo polegar.

Os assistentes de Catedral se afastam também. X-8 esqueceu o sapato sujo e tudo o mais; após recobrar a respiração, volta para casa muito apressado.

Chegado lá, começa a mexer freneticamente nos seus livros.

Na noite seguinte, bem mais seguro, X-8 está à espera no beco. Seu orgulho está em alta: então o pessoal do Alto Clero das palavras já o conhece e toma providências para o procurar! Bom, muito bom.

Na hora aprazada, apresentam-se as três figuras, imponentes, à entrada da ruela. Aproximam-se em silêncio. A de capa púrpura e farfalhante faz um gesto e uma das outras estende a mão. X-8 lhe alcança um papel enrolado, atado com uma fita vermelha. A palavra embuçada lhe alcança uma pequena sacola de veludo. Seria mais interessante se ela contivesse moedas de ouro, mas o dinheiro em papel que ali está não é desagradável.

As três palavras se voltam e saem, dignas, solenes. Andam com esse porte até a esquina e, logo que a dobram, abrem depressa o papel enrolado, entre pulinhos de adolescentes assanhadas.

Desta vez X-8 caprichou: escolheu o seu melhor papel creme e cuidou bem a escolha da fonte do computador.

– “Nada é bom demais num caso destes” – pensava ele, enquanto trabalhava no seu escritório noir.

O documento pago a bom preço rezava:

CATEDRAL – esta palavra vem da expressão em Latim Eclesiástico ecclesia cathedralis, “a igreja onde um bispo tem assento”.

A palavra ecclesia se originou no Grego ekklesia, “assembléia, reunião do povo” e se transferiu mais tarde para o prédio dedicado às reuniões religiosas, resultando na nossa igreja.

Como todos sabem, bispo vem do Latim episcopus, do Grego episkopos, formado por epi-, “sobre”, mais skopéo, “eu vejo, eu olho”. Ou seja, literalmente um supervisor.

Catedral em si vem do Grego katá-, “para baixo”, mais hedra, “assento, face, base”, por sua vez derivado do Indo-Europeu sed-, “sentar”. A noção é a de “sentar sobre algo”.

Este final hedra- tem muito uso em Geometria. Como exemplo, citamos tetraedro, um corpo com quatro faces iguais, dodecaedro, idem com doze faces iguais, diedro, local onde dois planos se tocam e fazem ângulo.

Como inhapa, contaremos que a origem de Acólito é o Latim Eclesiástico acolythus, do Grego akólouthos, “aquele que serve, companheiro de viagem”.

E que Sacristão vem do Latim sacristianus, “o que auxilia em tarefas sagradas”, que veio de sacer, “sagrado”.

Como todas as palavras, seja de que nível forem, estas três tinham intensa curiosidade em saber das suas origens. Leram o documento aos empurrões e gritinhos, sem respeitar a importância de Catedral. Terminada a leitura, voltaram aos pulos pelas ruas desertas até chegarem a uma região mais respeitável, quando reassumiram o porte digno e imponente que lhes cabia.

O detetive, voltando para casa, aproveitou para deixar algum dinheiro em troca de uma boa pizza, servida com os costumeiros oferecimentos extra-refeição de Odila, a garçonete.

Enquanto bebia seu refrigerante gelado, ele pensava:

– Catedral… uma catedral tem gárgulas. Mais um sinal de que eu preciso falar com Gárgula, minha antiga cliente. Parece que o destino a está apontando para mim. Decididamente, vou ter que fazer alguma coisa sobre isso.

Esse pensamento não lhe saía da cabeça enquanto ele voltava para casa pelas ruas desertas.

Resposta:

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