Palavra trem

Etimologia

Palavras: train , trem

Gostaria de saber a etimologia da palavra TRAIN e seu percurso até chegar ao TREM em Português.
Desde já, grato.

Resposta:

Essa palavra inglesa veio do Latim train, do Latim traginare, uma forma do verbo trahere, “puxar, arrastar”. O Português a adotou como trem.

TREM

 

– Bom dia, senhor vigilante desta bonita estação antiga de trem nesta tão bonita cidadezinha turística. Pode-se entrar? E sem pagar nada? É muita gentileza sua.

Sabe, meu nome é Odete Sinclair e sou professora de um grupo de aluninhos de Maternal muito levados. Eles só se acalmam um pouco quando eu falo sobre Etimologia. Mas eles deixariam até o próprio Satanás arrepiado com o seu comportamento, a ponto que o médico da escola me deu uns dias para descansar e resolvi fazer uma pequena viagem e espairecer por aqui.

É muito bonita a estação, agora adaptada para os dias de hoje. Em nossa região quase não se usa mais o transporte ferroviário para gente, agora que rodoviário tomou o seu lugar.

Olhe só as lojinhas de artesanato, quanto bom gosto! Objetos decorativos feitos de plástico reciclado de garrafas, que original! Numerosos artigos inúteis importados da China, que lindos! Quadros a óleo feitos por aposentadas que fizeram um curso de arte às pressas, que artísticos! Ainda bem que não tenho cartão de crédito, senão eu gastaria tudo aqui.

Mas diga-me, garboso vigilante, quando eu falei em trem poucas linhas acima, o senhor sabia que a origem dessa palavra é o Inglês train, do Latim traginare, uma forma do verbo trahere, “puxar, arrastar”? Isso porque a locomotiva dele é feita para arrastar os vagões, veja só que espertos.

Aliás, locomotiva vem do Inglês locomotive engine, “aparelho ou máquina que se move”, a primeira dessas palavras vindo do Francês locomotif, “relativo a movimento”, por sua vez do Latim locus, “lugar”, mais motivus, “o que se desloca, que se move”, de movere, “deslocar, mudar de lugar”.

Inicialmente essas máquinas, inventadas na Inglaterra, serviam apenas para deslocar cargas em minas. Elas eram movidas por engenhos a vapor, do Latim vapor, que veio do Indo-Europeu kap-, “exalar”.

E os vagões que o engenho puxava receberam esse nome a partir do Inglês wagon, “carro”, que veio do Germânico e Holandês wagen, “veículo com rodas”, do Indo-Europeu wegh-, “puxar, arrastar”. Isso mesmo, o Volkswagen que todos conhecemos descende daí. O seu nome, pelo menos.

O trem, por ser muito pesado, precisa se deslocar sobre trilhos, do latim tribulare, “percorrer uma trilha, um caminho”. Se não fosse assim, destruiria qualquer estrada.

Esses trilhos são mantidos em seu lugar por dormentes, uma tradução literal do Inglês sleeper, “adormecido, o que está dormindo”, já que eles ficam deitadinhos e quietinhos debaixo de todo aquele peso como se estivessem no maior sono.

É importante a gente não se esquecer de citar a origem de bitola, que expressa a distância entre os trilhos. Essa palavra não tem origem bem definida; sugere-se que ela venha do Anglo-Saxão wittol, “medida”.

As bitolas precisam ser muito bem definidas em cada região, senão um trem simplesmente não poderá trafegar porque suas rodas não caberão nos trilhos.

É muito romântico ver a fumaça saindo da chaminé de uma locomotiva ao longe. Romântico para quem não mora perto dos trilhos nem tem que estender os lençóis lavados para secar quando o trem passa, claro.

Chaminé vem do Francês cheminée, “lareira”, do Latim tardio camera caminata, “aposento com uma lareira” de caminus, “fogo, forno”, do Grego kaminos, “fornalha”.

Ao olhar uma locomotiva, destacam-se sempre as rodas, que vêm do Latim rota, “roda”, aparentemente do Indo-Europeu ra-, “mover, fazer girar”. Elas são sempre bem grandes, para dar bastante tração ao veículo.

A máquina a vapor funciona com a energia da queima de carvão, que veio do  Latim carbo, “carvão” mesmo.

Mas ela também pode queimar madeira, do Latim materia, “substância de que é feito um objeto físico”, bem como “a parte interna de uma árvore”, possivelmente relacionada com mater, “mãe, fonte, origem”.

Sim, a palavra matéria é outra descendente. O senhor é mais imteligente do que aparenta, parabéns.

Antes que o senhor fique por demais envaidecido com meu elogio, vou acrescentando que uma locomotiva também pode ser tracionada por um motor Diesel, cujo nome não veio do Latim, não; veio do nome do engenheiro alemão Rudolf Diesel, que desenhou em 1894 o motor potente e econômico que consome este combustível.

Os trens começaram transportando carga; esta palavrinha vem de carregar e começou a vida como “aquilo que pode ser levado num carro ou carreta”, do Latim carrum, “veículo com rodas”, do Indo-Europeu kers-, “correr”.

Depois o grande sucesso deles passou a ser o transporte de passageiros, o que deriva do Latim passus, “passo”, que é o particípio passado de pandere, “esticar (no caso, as pernas)”.

Mas até se chegar a isso, houve uma certa polêmica. No começo do século dezenove se acreditava que andar de trem seria impossível porque a pessoa simplesmente não conseguiria respirar devido à velocidade e porque os seus olhos não conseguiriam acompanhar a constante mudança da imagem que passava. A primeira locomotiva era precedida por um homem a cavalo para afastar pessoas e animais do seu caminho.

Mas saiba o prezado jovem que já existiram até trens militares, com blindagem, defesa com metralhadoras e canhões e transportando soldados. Não devia ser um alvo muito difícil de atingir, mas tudo dependia das armas dos eventuais atacantes.

Militares vem do Latim miles, “soldado”, talvez derivado do Etrusco, mas quem se importa com uma minúcia dessas durante uma conversa estimulante que nem a nossa?

Seja como for, todos eles param nas estações, do Latim statio, “posto, lugar que se ocupa”, de stare, “estar, ficar”, que é onde os passageiros e a carga aguardam direitinho para entrar no trem.

Meu jovem, você parece não estar passando bem. O seu olhar esgazeado e o seu silêncio me informam que você não deve estar em plena posse de suas capacidades. Talvez se eu lhe falar mais sobre Etimologia… Não? Tem certeza de que já está melhor? Chegou a hora de deixar o trabalho, já?

É uma pena, nossa conversa estava muito boa. Mas, enfim, desejo-lhe um bom descanso e pronta recuperação.

 

Resposta:

Pergunta #11933

Palavras: trem , uai

Não sou mineiro, mas vivo em Minas. Gostaria de saber de onde vêm as expressões “uai” e “trem”.

Aproveitando: gostaria de saber como posso consultar uma palavra que já foi esclarecida antes.

Resposta:

Ih, vivendo em Minas, você ouve bastante essas palavras.

A primeira é uma interjeição; uma hipótese sobre sua origem, ela tem bastante idade; derivaria do Latim VAE, “ai”, passando em Português pela forma GUAI.

. Qual seria a origem de “oi”, “ai”, “epa”? Alguém algum dia começou a usar e pegou.

“Trem” pode se dever ao significado de “conjunto de objetos levados em viagem”, passando a se aplicar a “coisa, objeto em geral”.

Mas não há certeza; usos regionais e gírias não conseguem entrar em trabalhos etimológicos por serem tão variados e, muitas vezes, usados por pouco tempo.

Avião

– Diabinhos, parem de incomodar a Patty! Val, Bebel, Lúcia, Joãozinho, vão ali para trás e olhem o exemplo dos que não incomodam.

Olhem a Maria Tereza sentadinha de vestidinho branco imaculado, os pezinhos cruzadinhos debaixo da cadeira. Olhem o Zorzinho escrevendo sem parar, mesmo sem saber direito ainda. Olhem o Soneca roncando na sua cadeira. Por que vocês não podem ser assim?

Fiquem quietos! Pare de chorar e conte-me o que houve, Patty. Ah, você disse que queria ser aeromosca quando crescer e eles começaram a zoar?

Em termos de Português você merecia mesmo uma reprimenda, mas não era para tanto.

Vamos nos sentar que eu vou contar para vocês algumas coisas sobre aviões. Opa, foi só falar nisso que o Soneca acordou.

Avião é uma palavra que foi feita bem antes de existir o próprio, e é derivada do Latim avis, “ave”. Foi um francês, Landelle, que a usou primeiro num tratado chamado Aviation ou Navigation Aérienne, “Aviação ou Navegação Aérea”. O nome avion foi dado por Clément Ader a um aparelho que ele esperava que voasse em 1875 e pegou entre os idiomas latinos. Os Germânicos chamam seus aparelhos com nomes de outra origem.

Devo dizer, Patty, que as moças que têm tanto trabalho com os passageiros dentro desses aparelhos se chamam aeromoças, não aeromoscas. Nem vou dizer a derivação, que foi feita dentro do Português mesmo.

Não, Arturzinho, não dá para se saber como se dizia aeromoça em Latim porque em Roma não havia aviões.

Ai, Senhor, quando será que vão arranjar um bom professor de História Clássica no Maternal para este colégio?

Hoje este pessoal é chamado de comissário. Essa palavrinha vem do Latim commissarius, a pessoa que organizava os jogos circenses. Formava-se por com-, “com”, mais o verbo mittere, “lançar, emitir”.

Guiando o avião está um outro moço, o piloto, que comanda o leme para que a gente siga pelos caminhos do céu no meio das nuvens. Essa palavra veio do Grego pedon, “timão, leme”. Gostou, hein, Soneca?

O co-piloto não precisamos explicar de onde veio, né? Podemos dizer que ele usa um uniforme bonito como o resto do pessoal de bordo.

E essa palavra, de onde veio? Ah, do Latim uniformis, “o que tem um só aspecto, uma só forma”. Foi no Francês uniforme, de 1748, que essa palavra passou a significar “roupas usadas por um grupo para se distinguir dos demais”.

O avião tem uma fuselagem onde todos devem ficar sentados quietinhos bem bonitinhos até chegarem ao destino. Este nome vem do Francês de 1908 fuselage, “corpo do avião”, que vem do Latim infundibulus, “funil”, por certa semelhança de forma. E a palavra latina veio do verbo fundere, “derreter, espalhar, fundir”. Muitas vezes o material derretido para algum propósito era passado por um funil.

Tem também as asas, que derivam do Latim ansa, “cabo, punho, asa de vaso”. Por incrível que pareça, não vem de ala, “asa de ave”.

Geralmente nas asas há umas coisas penduradas e barulhentas que são os motores, que vêm do Latim movere, “deslocar, mover, fazer mexer”. Aplica-se a “máquina que dá a capacidade de mover algo” desde 1856.

Eles podem ser a jato, do Inglês jet, “jato”, do Latim jectare, “lançar, atirar”. Isso porque eles imprimem movimento ao avião lançando uma torrente de ar para trás.

Se os motores não forem a jato, eles têm uma hélice, que vem do Grego helix, “espiral, movimento circular”, do verbo eilein, ” torcer, girar” do Indo-Europeu wel-, “girar”.

Como? Não, não sou do tempo dos dirigíveis nem vi Santos Dumont fazer o primeiro vôo, engraçadinhos. Nasci bem mais tarde, para o seu governo.

Se pararem de me interromper, vou poder contar que, lá no fim da fuselagem, há uma estrutura chamada cauda, indispensável para a estabilidade e controle do avião. O nome vem de uma analogia evidente com a cauda dos animais, que era cauda mesmo em Latim e se situa lá no fim do bicho.

Para que ele possa andar pela terra quando não está voando, ele tem um trem de pouso.

Eu sei, eu sei que as rodas são de borracha, não são de trem. Esta palavra vem do Inglês train, do Latim traginare, uma forma do verbo trahere, “puxar, arrastar”.

Isso deu origem a palavras que expressam “objetos unidos uns atrás dos outros” e também “conjunto de coisas com uma finalidade comum”, que é o caso aqui.

Não, Lúcia, se o avião cai o pessoal de bordo não se atira de pára-quedas deixando os passageiros na mão lá dentro.

Eles cumprem com o seu dever de auxiliar as pessoas sob sua responsabilidade até o fim. Aliás, o nome desse artefato vem de parachute, uma palavra que um tal Blanchard, que andava fazendo experiências com balões, inventou em 1785.

O para- quer dizer “proteger contra” e vem do Latim parare, “preparar”; o chute vem do Francês antigo cheoir, “cair”, do Latim cadere, “cair”.

Os aviões descem nos aeroportos. Essa palavra se formou por analogia com os portos, onde também chegam e saem veículos com cargas, só que aqui os veículos andam pelo ar, aer em Latim e Grego.

Esses locais são também chamados aeródromos, palavra feita do Grego aer mais dromos, “correr, deslocar”, pois é isso que os veículos aéreos fazem ali.

Sim, Sheilinha, aeródromo tem a ver com dromedário, muito bem. O nome deste bicho em Grego era dromas kámelos, “camelo de corrida”.

Lá vem a Valzinha contar uma de suas histórias… E aí a bagagem da sua tia foi trocada no hotel pela de um senhor e ela só percebeu a troca ao abrir porque as malas eram iguais, mas havia muitas roupas íntimas femininas? E por que não? Decerto ele era representante, vendedor ou algo assim…

Ah todas de tamanho grande como ele? E da mesma cor? Sapatos de salto agulha 42? Chicotes e algemas também? Talvez ele fosse representante de artigos para carrascos, as roupas fossem para uma amiga de pé grande e vamos voltar ao assunto da aula e por favor fique quietinha aí.

Essas trocas de bagagem ocorrem às vezes. Não, comigo nunca aconteceram; andei pouco de avião. Por que andei pouco de avião?

Porque não ouvi o que o meu pai disse quando me recomendou casar com um sujeito bem de grana para depois me divorciar e ficar só gastando o dinheiro dele.

Mas não, ah, não! A esperta aqui resolveu que tinha um ideal, que era o de ensinar as crianças, o futuro de nossa nação, etc., e vejam só onde fui parar!

Mas deixemos de chorar pelo lacticínio derramado e falemos da origem de bagagem. Ela vem do Inglês baggage, que veio do Francês bagage, onde bague era “pacote, saco”.

Se depender de mim, vocês vão sair das minhas aulinhas com uma bagagem cultural nada desprezível. Se depender unicamente de vocês, sairão só com letras de pagode nas cabeças ocas.

Quando o avião parte, diz-se que ele decolou. Essa palavra vem do Francês décoller; foi criada lá por 1835 e… Parem com a gritaria! Eu sei muito bem que não havia aviões nessa época! Hein? Não, Deli, nem mesmo aviões gigantes de pergaminho!

Deixem-me falar: ela queria dizer, originalmente, “descolar, separar objetos grudados, afastar”. Em 1907, foi aplicada ao ato do avião se afastar da terra, como se estivesse antes colado nela e se soltasse. Viram, seus impacientes?

Tudo o que sobe deve descer; quando tudo corre bem, o avião aterrissa; é quando ele retoma o contato com o solo. Essa palavra vem, evidentemente, de terra, lugar onde preferimos andar.

Já se usou aterrar com o mesmo sentido, mas houve problemas. É que esse verbo já estava comprometido com dois outros significados, o de “encher de terra” e o de “assustar, aterrorizar”, este derivado do Latim terror, “medo, espanto, pavor”.

Enfim, Patty, algo me diz que sim, você terá uma carreira junto ao céu, mas não necessariamente como aeromosca.

Agora decolem todos e aterrissem em suas casas.

Resposta:

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