Palavra bússola

AULA EM ALTO MAR

 

Uma gaivota ociosa sobrevoa o mar. Observa um veleiro e decide se aproximar para ver se descola alguma refeição. Com um elegante floreio das asas, pousa sobre uma verga e olha para baixo, de onde ressoa uma voz aguda.

Sobre o convés estão nada menos que Tia Odete e seus aluninhos. Epa, como foi que vieram parar aqui, a tantas milhas da sua escola? Vamos escutar o que ela diz:

– Muito bem, crianças, aqui estamos neste antigo navio pirata que meu amigo Estevão Spielberg, cuja mãe foi minha aluna, providenciou para uma de nossas aulinhas. Estou inaugurando a moda de Aulas Práticas de Etimologia. Talvez me dêem o Prêmio Nobel de Educação.

Pelo menos deviam me dar o da Paciência.

Parem de tentar atirar uns aos outros no mar, deixem para mim esse prazer. Agora olhem ao seu redor e ouçam: navio e nave vêm do Latim navis, do Grego naos.

Esse meio de transporte, na época dos piratas, era movido a velas, do Latim vellum, “véu, tecido, pele”.

As velas eram penduradas nos mastros, do Francês mast, que deriva do Frâncico, onde significava “poste, tronco de árvore, madeira longa aparelhada para suportar cordas e velas”.

Também eram colocadas nas vergas, aquela parte transversal igualmente de madeira, do Latim virga, “vara, bordão”.

E eram manobradas pela tripulação por meio de cordas, do Latim chorda, do Grego khordé, “tripa de animal”.

As cordas propriamente ditas eram puxadas no começo da manobra por cordas mais finas, as adriças. Seu nome vem do Italiano drizzare, “erguer, levantar”, que veio do Latim directus, “direito”.

Sim, Valesquinha? Um tio-avô seu foi apanhado na Sacristia às voltas com uma das senhoras da Comissão de Ajuda aos Pobres da paróquia e, de tanta vergonha, passou um laço de corda pelo pescoço e… não, essa informação em nada contribui para nossos conhecimentos de aula nem para a moral em formação de seus coleguinhas. Quanto à sua, já desisti.

Onde estava eu? Ah, sim, mostrava para vocês as diversas partes de nosso navio. Nós estamos parados sobre este piso, o tombadilho,  palavra que vem do Espanhol tumbadillo, derivado de tumbar, “cair, derrubar”. Isso porque estar aqui com ondas altas e ventos fortes costuma levar a esse resultado.

Outro nome que ele tem é convés, de origem discutida. Está bem, Zorzinho, aventa-se que a palavrinha venha de “convexo”, mas isso mais me parece uma hipótese tresloucada do que séria. E faça o favor de parar de rabiscar na vela dos moços, eles não vão gostar que uma criança que ainda não sabe escrever esteja escrevendo no material deles.

Aliás, é bom lembrar que o nome que designa o pessoal que trabalha aqui é tripulação, que veio do Latim interpolare, “retocar, tornar novo, reequipar”, de inter, “entre”, mais polare, uma forma de polire, “limpar, dar brilho”.

Sim, Aninha, sei que isso é meio esquisito, mas me parece que a palavra foi feita pensando nas atividades constantes do pessoal, que tinha que manter tudo bonito e brilhando para evitar castigos.

É interessante notar que essa palavra parece existir apenas em Português e Espanhol.

Eles podem ser chamados marinheiros, do Latim marinus, “relativo ao mar”, de mare, “mar”.

Também podem ser ditos marujos, também derivado de mare.

Olhem para a frente do navio: aquela parte é a chamada proa. Deriva do Latim prora, “parte da frente da embarcação”, derivado de pro-, “à frente”.

Calma, Lary, já vou contar que a parte de trás é a popa, do Latim puppis, possivelmente do Grego  opistha, “a parte de trás”.

Patty, se você parar de pular e gritar eu vou responder a essas suas dúvidas. O lado esquerdo do navio se chama bombordo porque vem do Francês bâbord, do Holandês bakboord, de bak, “lado traseiro, costas”, já que o piloto se mantinha de costas para esta parte ao manejar o leme, mais boord, “lado”.

E o lado direito – visto de quem está no navio e voltado para a proa – é estibordo, do Francês estribord, do Holandês stieboord, de stier, “leme”, mais o já citado boord. Isso porque o leme, quando era lateral, ficava sempre deste lado.

Tecnicamente não se usa mais estibordo; essa palavra foi substituída há tempo por boreste, para evitar confusão ao se gritar ordens durante mau tempo.

Citando os lados de um navio, eles são mais adequadamente conhecidos como costados, do Latim costa, “costa, lado, flanco”.

E já que falamos em leme, informo que infelizmente a origem dessa palavra não é conhecida.

Como falamos nele, lembro que o timão, aquela roda que vemos nos filmes, onde o piloto gira ela para lá e para cá como se fosse um corredor de Fórmula-1 e que serve para controlar o leme, vem do Latim timo, que designava  “barra que prendia entre si os bois de uma junta, barra para direção, cabeçalho de um carro a tração animal”.

Para que não se perdessem navegando num área enorme sem pontos de referência, os marujos precisavam de uma bússola. Ela vem do Grego pyx, “buxo”, que era uma madeira adequada para fazer a caixa de um instrumento que era muito precioso e precisava ficar bem resguardado.

Aliás, havia a bordo uma estrutura bem fixa para guardar a bússola, chamada bitácula. Esse nomezinho estranho veio do Latim habitaculum, “morada”, derivado de habitare, “morar, viver”.

Sim, Val? A origem da palavra motim? Ora, ela vem do Francês mutin, “rebelde”,  de meute, “revolta, motim”, do Latim movere.

Ei, por que vocês estão todos vestidos de piratas e com espadinhas e machados na mão? Cuidado, elas têm fio, vocês podem se cortar… Não? Querem cortar a quem mesmo?

Socorro! Uma turma enfurecida de Maternal está querendo liquidar uma pobre professora! E olhe ali no mar! Ali estão, de bocarras abertas, o kraken, de origem norueguesa obscura, e o leviatã, de origem hebraica também obscura, ambos monstros marinhos com particular apetite por seres humanos, mesmo que sejam magros como uma professora mal paga que nem eu!

Como se não fosse pouco, vejo elevar-se no horizonte um pavoroso tsunami do Japonês tsunami, de tsu, “porto”, mais nami, “onda”.

Aai, todos os santos do Céu e mais uns poucos! Ajudai esta pobre pecadora, afastai esses monstros marinhos e principalmente estes alunos sanguinários! Socorro!

 

 

Como assim, o que é que eu estou fazendo aqui no chão de meu quarto? Vejo que caí da cama. Então era só um pesadelo! Eu sabia que deveria ter tomado minha dose de Nervocalm antes de deitar.

Bem, não foi pior do que uma aula normal com aquelas figurinhas, de modo que o prejuízo não foi grande.

De volta para a caminha!

Resposta:

A Bússola

Eu tinha entrado no gabinete do meu avô para o cumprimentar. Sentia-me bem entre aquelas prateleiras forradas de livros, entre os objetos que ele tinha espalhados por ali, mas acima de tudo eu gostava de estar com ele.

Meus primos, algo maiores do que eu, não apreciavam aquilo tudo e pareciam sentir certo medo do velho com os cabelos todos brancos, barba curta e sempre bem arrumadinho. Parecia-me que, por sua vez, ele preferia que aqueles destruidores não entrassem no seu refúgio.

Mas comigo era diferente: eu percebia que ele tinha prazer em conversar comigo, e sempre que podia eu o visitava ali. Agora, como sempre, ele me tocou no ombro com afeto e trocamos umas palavras.

Olhei para uma caixinha metálica redonda numa das prateleiras:

– Vô, isto aqui é a bússola que o Senhor usava quando vivia sozinho no mato em cima das árvores, comendo gafanhotos e lendo os seus livros?

– Estou vendo que os seus primos já andaram lhe contando histórias de novo – disse ele com um ar severo na superfície mas risonho por trás.

É verdade que, quando eu era pequeno, eles tinham contado umas histórias assustadoras sobre o velhote, mas fazia muito que eu não acreditava nelas; na realidade, eu às vezes até inventava umas para o provocar, e ele se divertia com isso. Para não falar nas que ele inventava sobre si mesmo…

– Nunca vivi desse jeito no mato, mas já usei a bússola para me orientar, sim. Traga-a aqui.

E ele me fez abrir a caixinha, mostrou-me o seu funcionamento, falou sobre os chineses que a inventaram, a sua importância para a época das descobertas, os campos magnéticos da Terra. Ouvi com atenção, mas ainda assim esperando que ele entrasse no nosso assunto predileto, que era a origem das palavras.

– A palavra bússola vem do Grego pyx, “buxo”, que era uma madeira muito apreciada para se fazerem trabalhos delicados e com que se faziam as caixas dos primeiros desses artefatos. Agora preste atenção: em Latim, oriri significava “nascer, sair, levantar-se, surgir, começar”. Sole oriente era “sol nascente”. Encurtada para oriente, passou a designar não apenas um momento do dia como o local onde aparentemente nasce o sol. “Nascente” é um sinônimo.

Se uma pessoa sabe onde fica o oriente, sabe facilmente onde ficam os outros pontos cardeais; portanto, ela consegue se orientar. Originalmente, isto significava “voltar o rosto para o leste”. Na verdade, o sentido atual de localizar se fixou apenas no século dezenove.

Uma orientação não significa apenas uma localização espacial. Pode ser um ensinamento sobre como agir na vida, que um amigo dá para outro, os pais dão para os filhos, ou que este avô pode  passar quando um neto precisar. Não se esqueça disso.

Eu não me esqueceria, e mais adiante na vida isso ainda me ajudaria muito.

– Desse oriri naturalmente veio origem, que é o ponto do espaço ou tempo onde algo começou. Original é um derivado, e tem a conotação de “diferente, novo”, ao mesmo tempo que a de “referente ao primeiro, sem paralelos anteriores”. Isto me lembra um dos numerosos episódios da minha vida que me renderam pouco orgulho:

– Quando eu tinha os meus primeiros carros, que sempre se encontravam em mau estado, pois eu não podia comprar nada que prestasse, as surdinas deles viviam furando. Eu detestava aquele ronco; quando não podia aguentar mais, ia a uma loja de autopeças, os vendedores olhavam para o veículo desconjuntado e sempre me vendiam a peça original.

Eu saía muito contente, até, que não muito depois, a geringonça furava de novo e o ronco recomeçava. Isso aconteceu várias vezes, até que me dei conta que “Original” era apenas a marca da porcaria, não queria dizer que o fabricante fosse o mesmo do carro. Bem feito por não indagar melhor!

– Quer dizer que as palavras podem ser perigosas, não?

Meu avô suspirou:

– Você nem imagina quanto. Por isso é bom conhecê-las muito bem.

Agora, este verbo oriri tem um parente próximo, ordiri, “começar”. Daí temos ordem, ordenar , “formar um conjunto seguindo certos critérios”.

Coordenar vem de com, “junto”, e ordiri. Presume-se que um coordenador coloque em ordem um conjunto de coisas ou atividades. Se ele tiver capacidade e os outros deixarem, é claro. Os franceses, muito ciosos de seu idioma, têm um nome diferente para o computador; eles dizem ordinateur, e na verdade ele é um aparelho para ordenar dados, cálculos e arquivos.

Ordinário primeiro queria dizer “arrumado, em ordem”, passando depois para “habitual, comum”, e agora costuma significar “de pouco valor, vil”.

– E quando a nossa faxineira diz “que todos os homens são ordinários”, quer dizer que eles são arrumados ou comuns ou o quê?

– Ela quer dizer que eles não prestam, e deve ter lá os seus motivos para isso. Mas não se assuste, não são todos assim, não.

– O Pai contou que, quando ele estava no Exército, os oficiais ordenavam: “Ordinários, marchem!?

– Ou é piadinha do seu pai ou você entendeu mal. Essa ordem significa “Marchem em passo ordinário”, ou seja, em passo comum. Há outros passos de marcha além desse, como o passo de ganso, acelerado, sem cadência, de modo que o passo tem que ser definido antes de se começar. Já pensou, cada soldado usando o passo que lhe der na telha?

Falando em soldados:, ordenar no sentido de “fazer um arranjo disciplinado de alguma coisa” só se consegue mandando e demonstrando força; daí que, através do Francês ordener, temos ordem, ordenar no sentido de “comandar, exercer autoridade”.

– Vô, se nascente é o mesmo que oriente, por que não dizemos “morrente” para o lugar onde o sol se põe?

– E dizemos, dizemos mesmo. Só que com outra forma. Chamamos esse local de ocidente. Essa palavra vem do Latim ob, “à frente, por, devido a” mais cadere, “cair, morrer, diminuir”. Logo, esse é o lugar onde o sol morre.

A palavra ocaso é a mesma coisa. Vita occidens, diziam em Roma: o ocaso da vida. É a época em que esta se aproxima do fim, e há gente tola que morre de medo de morrer.

Ficou um pouco pensativo. Preocupei-me:

– Mas nós não vamos morrer, né, Vô? – Aquele “nós”, para mim, abrangia tanta gente…

Sorriu de leve:

– Enquanto não se sai da memória dos outros, ninguém morre. Fique tranquilo.

Agora guarde a bússola no lugar, direitinho… Se você a quebrar, eu o frito em azeite quente! E disto tudo guarde o seguinte: para nos orientarmos pela vida, precisamos de uma bússola que não se compra em nenhuma loja. Ela se chama Inteligência, e não basta nascer com ela.

Precisa ser treinada, portanto vá para a sua casa estudar; aposto que você tem algum tema para fazer. Toca a exercitar a sua bússola! – e me deu uma palmada.

Resposta:

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