Palavra vela

Origem Etimológica.

Palavras: vela

A palavra Vela vem de véu, tecido, pano, como se observa na sua simpática Aula de Alto Mar. Mas a pergunta é: de onde vem “Vela” no sentido luminoso?

Resposta:

Bem lembrado. Aqui houve mais um caso de convergência etimológica, onde palavras de origens a aspecto diferentes acabam se tornando iguais com o correr dos tempos.

Esta vela deriva do Latim vigilare, “cuidar, observar, vigiar”, que nos deu o verbo velar. E vigilare veio de uma raiz Sâncrita vag’ayami, “incito, torno alerta, alegre”.

AULA EM ALTO MAR

 

Uma gaivota ociosa sobrevoa o mar. Observa um veleiro e decide se aproximar para ver se descola alguma refeição. Com um elegante floreio das asas, pousa sobre uma verga e olha para baixo, de onde ressoa uma voz aguda.

Sobre o convés estão nada menos que Tia Odete e seus aluninhos. Epa, como foi que vieram parar aqui, a tantas milhas da sua escola? Vamos escutar o que ela diz:

– Muito bem, crianças, aqui estamos neste antigo navio pirata que meu amigo Estevão Spielberg, cuja mãe foi minha aluna, providenciou para uma de nossas aulinhas. Estou inaugurando a moda de Aulas Práticas de Etimologia. Talvez me dêem o Prêmio Nobel de Educação.

Pelo menos deviam me dar o da Paciência.

Parem de tentar atirar uns aos outros no mar, deixem para mim esse prazer. Agora olhem ao seu redor e ouçam: navio e nave vêm do Latim navis, do Grego naos.

Esse meio de transporte, na época dos piratas, era movido a velas, do Latim vellum, “véu, tecido, pele”.

As velas eram penduradas nos mastros, do Francês mast, que deriva do Frâncico, onde significava “poste, tronco de árvore, madeira longa aparelhada para suportar cordas e velas”.

Também eram colocadas nas vergas, aquela parte transversal igualmente de madeira, do Latim virga, “vara, bordão”.

E eram manobradas pela tripulação por meio de cordas, do Latim chorda, do Grego khordé, “tripa de animal”.

As cordas propriamente ditas eram puxadas no começo da manobra por cordas mais finas, as adriças. Seu nome vem do Italiano drizzare, “erguer, levantar”, que veio do Latim directus, “direito”.

Sim, Valesquinha? Um tio-avô seu foi apanhado na Sacristia às voltas com uma das senhoras da Comissão de Ajuda aos Pobres da paróquia e, de tanta vergonha, passou um laço de corda pelo pescoço e… não, essa informação em nada contribui para nossos conhecimentos de aula nem para a moral em formação de seus coleguinhas. Quanto à sua, já desisti.

Onde estava eu? Ah, sim, mostrava para vocês as diversas partes de nosso navio. Nós estamos parados sobre este piso, o tombadilho,  palavra que vem do Espanhol tumbadillo, derivado de tumbar, “cair, derrubar”. Isso porque estar aqui com ondas altas e ventos fortes costuma levar a esse resultado.

Outro nome que ele tem é convés, de origem discutida. Está bem, Zorzinho, aventa-se que a palavrinha venha de “convexo”, mas isso mais me parece uma hipótese tresloucada do que séria. E faça o favor de parar de rabiscar na vela dos moços, eles não vão gostar que uma criança que ainda não sabe escrever esteja escrevendo no material deles.

Aliás, é bom lembrar que o nome que designa o pessoal que trabalha aqui é tripulação, que veio do Latim interpolare, “retocar, tornar novo, reequipar”, de inter, “entre”, mais polare, uma forma de polire, “limpar, dar brilho”.

Sim, Aninha, sei que isso é meio esquisito, mas me parece que a palavra foi feita pensando nas atividades constantes do pessoal, que tinha que manter tudo bonito e brilhando para evitar castigos.

É interessante notar que essa palavra parece existir apenas em Português e Espanhol.

Eles podem ser chamados marinheiros, do Latim marinus, “relativo ao mar”, de mare, “mar”.

Também podem ser ditos marujos, também derivado de mare.

Olhem para a frente do navio: aquela parte é a chamada proa. Deriva do Latim prora, “parte da frente da embarcação”, derivado de pro-, “à frente”.

Calma, Lary, já vou contar que a parte de trás é a popa, do Latim puppis, possivelmente do Grego  opistha, “a parte de trás”.

Patty, se você parar de pular e gritar eu vou responder a essas suas dúvidas. O lado esquerdo do navio se chama bombordo porque vem do Francês bâbord, do Holandês bakboord, de bak, “lado traseiro, costas”, já que o piloto se mantinha de costas para esta parte ao manejar o leme, mais boord, “lado”.

E o lado direito – visto de quem está no navio e voltado para a proa – é estibordo, do Francês estribord, do Holandês stieboord, de stier, “leme”, mais o já citado boord. Isso porque o leme, quando era lateral, ficava sempre deste lado.

Tecnicamente não se usa mais estibordo; essa palavra foi substituída há tempo por boreste, para evitar confusão ao se gritar ordens durante mau tempo.

Citando os lados de um navio, eles são mais adequadamente conhecidos como costados, do Latim costa, “costa, lado, flanco”.

E já que falamos em leme, informo que infelizmente a origem dessa palavra não é conhecida.

Como falamos nele, lembro que o timão, aquela roda que vemos nos filmes, onde o piloto gira ela para lá e para cá como se fosse um corredor de Fórmula-1 e que serve para controlar o leme, vem do Latim timo, que designava  “barra que prendia entre si os bois de uma junta, barra para direção, cabeçalho de um carro a tração animal”.

Para que não se perdessem navegando num área enorme sem pontos de referência, os marujos precisavam de uma bússola. Ela vem do Grego pyx, “buxo”, que era uma madeira adequada para fazer a caixa de um instrumento que era muito precioso e precisava ficar bem resguardado.

Aliás, havia a bordo uma estrutura bem fixa para guardar a bússola, chamada bitácula. Esse nomezinho estranho veio do Latim habitaculum, “morada”, derivado de habitare, “morar, viver”.

Sim, Val? A origem da palavra motim? Ora, ela vem do Francês mutin, “rebelde”,  de meute, “revolta, motim”, do Latim movere.

Ei, por que vocês estão todos vestidos de piratas e com espadinhas e machados na mão? Cuidado, elas têm fio, vocês podem se cortar… Não? Querem cortar a quem mesmo?

Socorro! Uma turma enfurecida de Maternal está querendo liquidar uma pobre professora! E olhe ali no mar! Ali estão, de bocarras abertas, o kraken, de origem norueguesa obscura, e o leviatã, de origem hebraica também obscura, ambos monstros marinhos com particular apetite por seres humanos, mesmo que sejam magros como uma professora mal paga que nem eu!

Como se não fosse pouco, vejo elevar-se no horizonte um pavoroso tsunami do Japonês tsunami, de tsu, “porto”, mais nami, “onda”.

Aai, todos os santos do Céu e mais uns poucos! Ajudai esta pobre pecadora, afastai esses monstros marinhos e principalmente estes alunos sanguinários! Socorro!

 

 

Como assim, o que é que eu estou fazendo aqui no chão de meu quarto? Vejo que caí da cama. Então era só um pesadelo! Eu sabia que deveria ter tomado minha dose de Nervocalm antes de deitar.

Bem, não foi pior do que uma aula normal com aquelas figurinhas, de modo que o prejuízo não foi grande.

De volta para a caminha!

Resposta:

VELA

Certo dia fui visitar meu avô em seu gabinete, no fundo do pátio, quando estava escurecendo e tinha faltado energia.

Ele estava com o gato Ernesto no colo, lendo um livro antigo, à luz de umas velas num castiçal.

Cumprimentamo-nos com carinho, como sempre. Ele me alcançou o gato, que se acomodou sobre mim, ronronando enquanto eu lhe coçava o queixo.

Comentei:

– Ainda bem que já inventaram a vela, hein, Vô? Senão a sua leitura ia ter que esperar.

– Até agora grande parte das leituras humanas à noite foi feita à luz de velas ou tochas, de modo que historicamente estou bem acompanhado. Falando nisso…

– Já sei, o senhor vai me contar a origem dessa palavra?

– Menino esperto, esse! Para não decepcioná-lo, vou contar que ela deriva do Latim vigilare, “cuidar, observar, vigiar”. E que esta veio de uma raiz Sâncrita vag’ayami, “incito, torno alerta, alegre”.

Na Roma da época de Augusto foram instituídos guardas, os vigili, “vigias”,  para manter a segurança dos cidadãos durante a noite e para combater os incêndios, que podiam tomar proporções desastrosas. Até hoje os bombeiros italianos portam o nome vigili del fuoco, “vigias do fogo”.

– E usam aquelas túnicas romanas?

– Não, graciosinho, usam trajes adequados para a tarefa.

– Outro dia o Pai estava resmungando sobre um problema com as velas do carro. Como é que elas fazem para ficar acesas dentro do motor?

– Impressionante como você pode se fazer de tolo com essa cara tão inocente. Claro que sabe que se trata de um dispositivo usado para queimar a mistura de ar e combustível. Mas a origem é a mesma; já que se trata de um objeto mais ou menos cilíndrico, branco e que apresenta fogo, ou uma faísca, quando funciona, recebeu o nome de vela.

– E as velas dos barcos? São acesas à noite para iluminar o caminho?

– Hoje você está impossível de tão asneirento. Tal palavra, com esse significado, tem uma origem diferente. Vem do Latim vellum, “tecido, pele, véu”. Como as velas dos barcos da antigüidade eram de tecido, a palavra passou a designar o equipamento que se pendurava das vergas para captar o vento que movia as naves.

Mas, voltando aos derivados de vigilare, temos o verbo velar, que pode ser usado como substituto de vigiar.

E também viger

– Epa, essa palavra é nova para mim!

Muitas palavras são novas para você, rapazinho! Esta é mais usada no terreno das leis e quer dizer “estar em vigor, ter eficácia”. E deriva de vigilare, através do significado de “estar vivo, ter força”.

Falando em vigor, esta também tem a mesma origem, de vigere, “ter força”. Aliás, você comeu salada hoje?

– E esta agora, Vô? Comi, sim.

– Pois os vegetais dela são outra palavra derivada dessa turma que estamos vendo, através do Latim vegetare, “apressar”, já que as plantas costumam apresentar um crescimento rápido. Pelo menos as alfaces e os tomates.

Falando em rapidez, temos que veloz tem as mesmas origens, pelo Latim velox, “rápido”.

E antes que me afaste muito, lembro que revigorar evidentemente vem de vigor, com o prefixo re-, intensificativo.

– Quantos significados diferentes para uma só palavra inicial!

– Aí está porque muitas pessoas ficam viciadas em Etimologia. Através dela a gente começa a ver um mundo de que não desconfiava.

Por exemplo, sabe o Réveillon, a festa de entrada do Ano Novo? Essa palavra vem do Francês réveiller, “acordar, deixar de dormir”, de velare, “fazer vigília”, de vigilare.

Temos também a vedete, que hoje indica uma pessoa que se interessa em ficar em evidência. Isso porque se aplicava às moças que se apresentavam em shows e que, como consequência, eram muito vistas e destacadas.

Mas poucos sabem que vedette em Inglês e Francês se usa para designar “sentinela, posto de vigia”, bem como “lancha rápida para observação”.

Ela veio do Italiano vedetta,  que era antes veletta mas trocou o “L” por “D”, por influência de vedere, “ver”.

E adivinhe só de onde veio veletta?

– De vigilare, Vô!

– Grande rapaz. Dá para ver que é meu descendente!

 

Resposta:

MARCANDO HORA

 

O famoso detetive etimológico hoje recebe, em seu escritório empoeirado do mal-encarado Ed. Éden, num bairro horrível, um grupo de clientes.

Ele percebeu que a tendência de atendimento em grupo, oferecendo descontos, tem se espalhado e vai dar uma experimentada para valer. Filiou-se a um Clube de Descontos pela Internet e hoje está colhendo os primeiros frutos.

À sua frente está um heterogêneo grupo de palavras, aparentemente sem nada em comum, exceto o fato de nomearem, todas,  algum método de marcar o tempo.

Com seu jeito de pesquisador mortalmente frio, rosto escondido pelo chapéu desabado, ele se dirige à palavra que encabeça o ansioso grupo.

– Você aí, Relógio, conte-me por que veio com suas amigas consultar? Foi porque vocês, palavras, têm um irresistível desejo de descobrir suas origens, a ponto de passarem toda uma vida poupando para verem chegar esse momento, para o que escolhem alguém com especial treinamento e qualificação, com o eu?

A palavra ficou muda. Antes que ela pudesse responder, o detetive continuou:

– Bem, no seu caso a origem é o Latim horologium, do Grego horologion, “quadrante solar para marcar o tempo”, de hora, “estação, qualquer divisão de tempo, momento, hora”. Como se sabe, a marcação do tempo com alguma precisão é coisa de poucos séculos. Por isso, nas épocas em que os deuses gregos caminhavam pelas estradas rurais atrás de ninfas bonitinhas, o nome hora era usado com tanta largueza e imprecisão.

O quadrante solar ou relógio de sol é chamado de sundial em Inglês.

Como todos sabem, sun quer dizer “sol” nesse idioma. Já dial veio do Latim dialis, “diário”, de dies, “dia”. Essa palavra parece ter sido retirada da expressão rota dialis, “roda diária”, e evoluiu para o significado de “círculo giratório”.

Quando se começou a usar o telefone, em 1879, o disco onde estavam escritos os algarismos para chamada recebeu o nome de dial. Mais tarde, quando os aparelhos de rádio começaram a ser usados, o controle de sintonia (que era um disco com os números das estações marcados, com um ponteiro) também recebeu essa denominação. Hoje a palavra já faz parte do Português.

Falando em equipamentos antigos, vejo ali uma outra palavra usada na tarefa de registrar a passagem do tempo: como vai, clepsidra? Seu nome vem do Latim clepsydra, do Grego klepsydra, literalmente “ladrão de água”.

Não, não se ofenda com sua origem: é que esses aparelhos funcionavam por meio de um furinho pelo qual saía a água de um depósito. Assim, se dizia que ele “roubava água”. Mas pode estar certa de que ninguém jamais fez alguma queixa numa Delegacia por causa disso, fique calma.

Temos aí a seu lado ampulheta, que vem do Espanhol ampulleta, “ampola pequena”, já que ela continha areia que ia se escoando entre duas ampolas de vidro comunicadas entre si.

E “ampola” deriva do Latim amphora, do G.  amphoreus, “recipiente de barro, jarra, urna”, contração de amphiphoreus, de amphi-, “de ambos os lados”, mais phoreus, “portador”, de pherein, “levar, carregar”. É uma volta grande, não é?

A ampulheta muitas vezes é representada como um atributo da Morte, simbolizando o tempo de uma vida que vai se esgotando. Bem expressivo, mesmo que arrepiante.

Ocupando um lugar discreto, temos ali Vela. Seu nome deriva do Latim vigilare, “cuidar, observar, vigiar”. Por vários séculos se usaram velas com marcas horizontais para marcar o tempo.

Tal como os demais métodos, os resultados não eram dos mais precisos.

Em épocas mais modernas se inventou o relógio de Pêndulo, que nos fita com essa cara ansiosa. Seu nome vem do Latim pendulum, “o que está pendurado”, de pendere, “pendurar”.

Uma invenção de 1735 é o Cronômetro, aparelho que marca pequenas frações de tempo, de khronos, “tempo”, mais metron, “medida”.

Recentemente surgiu o uso, em termos de relógios, das palavras Digital e Analógico, que aqui comparecem para saber também de suas origens.

A primeira se relaciona ao Latim digitus, “dedo”, e está em uso na área de computação desde poucos anos antes de 1945. Isso porque a contagem sempre teve uma relação básica com os dedos.

E a outra vem do Latim analogia, do Grego analogia, “proporção”, de ana-, “de acordo com”,  mais logos, “palavra, tratado, estudo”. Num relógio, indica que as horas são mostradas por analogia com um círculo e não através de dígitos ou algarismos.

E agora, prezadas clientes, terminou nossa sessão. Foi curta, mas as restrições de pagamento feitas pela Internet não nos permitem maior alongamento.

Se quiserem comer um bom bauru para comemorar seus novos conhecimentos, cruzem a rua e entrem ali no Bar do Garcia. Mostrem este bilhete para ele que ele lhes dará um desconto. Vale a pena, será inesquecível.

Meus melhores votos, prezadas clientes.

Resposta:

FONTES DE LUZ

 

 

O único animal que consegue produzir luz com meios artificiais é o Homem, já notaram isso?

Para poder enxergar à noite, ele inventou numerosos métodos e dispositivos, usando materiais diversos. Esta edição se dedicará a informar a origem da denominação de vários deles e seus correlatos.

LUZ – do Latim lux, “luz”, do Indo-Europeu leuk-, “luz, brilho”.

FOGO – é o mais básico dos métodos de produzir luz e calor: aquecendo o suficiente diversos tipos de materiais, eles entram em combustão e ionizam o ar próximo, estimulando os átomos do combustível a emitir fótons, ou seja: luz.

“Fogo” vem do Latim focus, “lareira, local de fazer fogo numa casa”.  E, sim, o “foco” das lentes recebeu esse nome a partir daí, pois é o ponto onde convergem os raios luminosos e no qual a temperatura fica mais alta

FÓTON – já que o citamos acima, esta palavra foi criada em 1926. Foi feita a partir do Grego phos-, “luz”, mais on, aqui com o sentido de “unidade”.

FÓSFORO – para acender uma fogueira muitas vezes se usa um destes, cujo nome vem do Grego phosphoros, que se aplicava à Estrela da Manhã (o planeta Vênus em sua aparição matutina).

Literalmente, queria dizer “aquele que traz a luz”, “portador de tocha”, de phos-, “luz”,  mais phoros, “portador”, de pherein, “levar”.

ISQUEIRO – é outra maneira de iniciar um fogo. Deriva do Latim esca, “pasto, nutrição”. Os isqueiros antigos dependiam de um material de fácil combustão e bem aerado para iniciar a chama com facilidade, a “isca”.

O sentido de “isca” para pegar peixes ou, metaforicamente, atrair alguém para uma cilada também vem do significado de “alimentar”, “oferecer algo atraente”.

FAÍSCA – basta uma para começar um incêndio, todos sabem. Esta palavra viria do Germânico falawisk, “centelha, faísca”.

CENTELHA – veio do Latim scintilla, “faísca, pequena luz”.

FAGULHA – latina; de facucula, diminutivo de facula, “tocha, archote”.

TOCHA – do Latim torquere, “enrolar, torcer”, já que as tochas antigas eram muita vezes feitas com uma corda enrolada e embebida em cera ou breu.

ARCHOTE – do Espanhol hachote, “tocha”, que viria talvez do Latim fax, “feixe”, pois era possível improvisar uma tocha com um feixe de ramos secos.

LÂMPADA – finalmente vamos deixar de lado essas coisas que a gente só vê em filme e lidar com algo mais moderno, certo?

Errado.  Esse nome se aplica a objetos usados para fazer luz, em geral dependentes de óleo, há milênios.  A que usamos em nossas casas é apenas um dos tipos, este de funcionamento à eletricidade.

Seu nome vem do Grego lampas, “tocha, raio de luz, meteoro luminoso”, de lampein, “brilhar”.

LAMPIÃO – do Italiano lampione, “lâmpada grande”.

LANTERNA – bem, esta sim é moderna, com as pilhas e tudo… Não?

Não. Esta palavra está em nosso idioma pelo menos desde o século XIII, lá pelos anos mil e duzentos, imaginem só.

Claro que o aparelho era bem diferente, possuindo material transparente ou diáfano disposto ao redor de uma fonte que dava luz por combustão.

Era já lanterna em Latim, vindo do Grego lampter, “tocha”, do nosso já conhecido verbo lampein.

VELA – quando falta energia elétrica, precisamos recorrer a esse artefato de cera com uma mecha.

Seu nome deriva do Latim vigilare, “cuidar, observar, vigiar”. Em outras épocas, isso muitas vezes era feito à luz oscilante de uma vela.

Aliás, obras imortais também nasceram ao seu bruxulear.

BRILHO – veio do Latim brillus, “qualidade daquilo que emite luz ou dá reflexos”, derivado do Grego beryllos, o nome de uma pedra que devolvia intensamente a luz.

FAROL – esta construção que salvou muitas vidas deve seu nome à ilha de Pharos, junto à cidade de Alexandria, no Egito.

Nesta pequena ilha do seu porto se ergueu um prédio muito elevado (120m a 140m, dizem) para abrigar o fogo que orientaria os viajantes até à segurança da terra.

Ele figura entre as sete maravilhas da Antiguidade e até hoje é lembrado nesta palavra.

SEMÁFORO – este dispositivo também salva muitas vidas. E salvaria mais se os motoristas obedecessem a ele.

Vem do Francês sémaphore, composto do Grego sema, “sinal”, mais phoros. Ou seja, é um aparelho para indicar sinais de trânsito.

CANDELABRO – do Latim candelabrum, originalmente “vela”, de candela, “tocha, vela, objeto em ignição para emitir luz”, relacionado a candere, “brilhar”.

Resposta:

Múltiplas Personalidades!

 

X-8 está nervoso. No dia anterior não tinha tido nenhuma palavra cliente. Hoje o seu horário de trabalho está por terminar (já passa das nove da noite; ele fecha a sua porta rigorosamente às dez, se não estiver atendendo a freguesia) e nada ainda.

Palavras ingratas, que deixam de consultar depois de todos os sacrifícios que faz por elas! Está certo, os seus preços são bastante altos para o trabalho que ele tem, mas o que conta é a importância do seu trabalho para elas.

Se fosse barato, que valor elas iriam dar para o conhecimento das suas origens? Elas apenas teriam um papel com umas explicações que prontamente iriam esquecer numa gaveta.

Mas o que ele produz é cercado pelo mistério de um escritório de detetive com uma decoração que é legítima imitação das histórias dos anos 50, com sujeira, teias de aranha, com um intrigante detetive de capa e chapéu que afirma correr enormes riscos. É um documento altamente qualificado.

E é assinado por um profissional que fez a Faculdade de Etimologia, o Curso Ataliba por Correspondência para Detetives Particulares e ainda se pós-graduou na Academia de Detetives Etimológicos. Foi o primeiro colocado na sua turma.

Verdade é que ele era o único, mas e daí? O diploma está lá na parede para comprovar, e não diz quantos alunos havia.

Ele se sente acabrunhado pelo descaso das palavras. Por que não estão comparecendo como antes? Como é que ele vai manter o seu saldo ascendente no banco desse jeito? Com os chocolates finos cada vez mais caros, os livros importados então nem se fala, aquele carro estrangeiro que ele andava namorando…

Comprar à vista, como? E submeter-se aos juros escorchantes desses ladrões que não têm dó do dinheiro alheio, que tudo o que querem é sugar o sangue dos pobres clientes, é uma indignidade.

Ele pensa que, desse jeito, em menos de vinte anos vai ter que colocar uma banquinha na calçada e ficar apregoando:

“Olha a etimologia boa e barata! Saiba as suas origens na horinha! Aqui, minha senhora, aqui, meu senhor! Sai uma prô cavalheiro ali, outra para a menina aqui! Vamos lá, pessoal! É bom, é importante, é baratinho! Por umas moedas você descobre seus antepassados! Aí, gente! Concorra ao sorteio de uma camiseta no fim do ano! A cada dez encomendas você recebe um étimo grátis!”

Sente seus olhos se marejarem. Uma carreira brilhante indo pelo ralo, sem ao menos uma explicação plausível. Não dá para entend…

Pára, seus sentidos aguçados como um gato à caça, pois julgou ouvir passos pelo corredor vindo para a sua sala.

Ele gosta de pensar que ouviu passos porque é mais romântico. Na verdade, o que se ouve é o ruído do lixo a ser espalhado pelos pés de quem caminha: copos descartáveis, garrafas plásticas vazias, cacos de louça, caixas velhas e coisas que é melhor não mencionar.

Imediatamente sua coluna se ergue, ele fica teso, quieto e misterioso atrás da escrivaninha enorme.

Batem à porta; ele manda entrar. Passam pela soleira três palavras: Pera, Mosca e Vela.

– O senhor é que é o famoso, competente e audaz detetive que ajuda as palavras em necessidade? – diz Vela.

A figura dentro da capa de gabardine cor de palha parece inchar. Por entre a gola levantada e a aba do chapéu sai sua voz:

– Em carne, osso e principalmente cérebro, para servir as distintas clientes. Por favor, sentem aí no banco e abram os corações.

– Nós somos conhecidas de umas clientes suas que estiveram consultando não faz muito, Sessão, Cessão, Seção

– Eu me lembro do caso. Fiz um atendimento conjunto de urgência, pois elas estavam muito deprimidas e em risco grave e iminente.

– Pois é – disse Pera – elas nos contaram que o conheceram quando o senhor estava falando com o dono do barzinho ali em frente.

Aliás, pelo que elas viram, parecia que o senhor o estava apertando, dando-lhe um duro. Ficaram achando que decerto ele andava fazendo alguma coisa ilegal e que o senhor, mesmo correndo risco de vida numa espelunca daquelas, foi dizer para ele voltar à linha para não ter que enfrentar os seus punhos ou coisa parecida.

Dava para perceber que aquela palavra gostava de traçar uma reta a partir de um único ponto. X-8, que sabia muito bem que Garcia, o sujeito do bar, tinha sido o seu fornecedor quando ele estava nas garras do vício, mudou logo de assunto.

– Sou uma pessoa muito reservada e modesta. Prefiro que não falem sobre meus feitos heróicos na minha frente. Quem sabe passamos ao motivo da simpática vinda de vocês?

– Bem, doutor X-8 – falou Mosca – nós não temos problemas de homofonia como aquelas nossas amigas (elas nos explicaram tudinho o que o senhor falou). Mas nos atrapalhamos ao ter que atender usuários que nos destinam a significados muito diferentes.

Não é tanto que isso nos incomode, só queríamos saber o por quê. Até trouxemos dinheiro para pagar, já que sabemos que o senhor é capaz de atender na hora a qualquer dúvida.

E agora? No atendimento a que elas se referiam, X-8 tinha tido preciosos minutos para pesquisar rapidamente a etimologia das palavras que ele já sabia que iriam até ali consultar. Mas nem ele sabia a resposta assim de cor para uma dúvida como a que estava à sua frente. Quem mandou fazer aquela onda toda?

Mas ninguém pense que ele se deixaria atrapalhar por um probleminha desta ordem, não. Com a maior seriedade, ele colocou a mão direita na testa, ou melhor, na copa do chapéu, a esquerda num bolso, pensou um pouco e olhou para Mosca.

– Muito bem. Vamos começar por você. O seu caso é o seguinte; uma raíz Pré-Indo-Européia…

Foi quando se ouviu o som de “Tico-Tico no Fubá” saindo de dentro da sua capa.

– Desculpem. Só um momento.

Ele puxou um celular do bolso e começou a responder:

– X-8. Sim.. Não… Quem?… Como?… Onde?… Quando?… Quantas mortes?… Nenhum sobrevivente… Muito sangue… Sei… Certo, não se pode espalhar o pânico.

Isolem a área e não mexam em nada até eu chegar. Comecem a interrogar a vizinhança discretamente, sem que ela perceba. Tirem-nos da cama se for preciso, mas sem chamar a atenção. Não demoro.

Guardou o celular com o ar mais preocupado possível para quem tem o rosto oculto. Olhou para as suas clientes:

– Aconteceu uma coisa muito séria. Não posso dizer quem foi que ligou, nem dar idéia do que foi que houve. Apenas digo que há muitas vidas em risco se não agirmos logo. Daí se vê que não vou poder atendê-las agora; sou chamado para algo urgente e inadiável e simplesmente não posso desobedecer, devido a certas funções secretas que exerço. Vamos fazer o seguinte: voltem amanhã às vinte horas e dezessete minutos. Até lá já deverei ter resolvido o caso e poderemos falar com mais tranqüilidade. Sinto muito, mas uma pessoa comprometida com a luta contra o crime nunca é de todo livre, vocês entendem. Podemos descer juntos.

As palavras estavam de olhos arregalados, fascinadas por estarem participando de uma situação daquelas. Disseram que compreendiam muito bem a conjuntura e que não queriam atrapalhar.

Desceram os quatro pelas escadas escuras e sujas. Chegados à calçada, o detetive perguntou:

– Para que lado vocês vão?

– Para lá, disse Pera, apontando para a direita.

– Pena. O veículo do Serviço Secr… – pareceu atrapalhar-se – uma carona está me esperando para o outro lado. Até amanhã – parou de repente, como se só então se tivesse lembrado de algo – devo dizer que, se vocês ouviram alguma coisa do que eu falei ao telefone, devem esquecer. O assunto está sob a jurisdição da Lei dos Segredos Secretos, que não pode ser rompida. Não se esqueçam disso.

As palavras, impressionadíssimas, seguiram o seu caminho em silêncio. Só começaram a comentar aquela situação emocionante dali a duas quadras.

O detetive se afastou, passos de veludo, para o outro lado. Parou na esquina seguinte. Encostou-se a um poste e olhou para trás. Quando as palavras sumiram de vista, ele voltou rapidamente para o seu edifício, subiu depressa as escadas e entrou no escritório.

Chegado lá, congratulou-se mentalmente por ter comprado aquele celular de brinquedo que tocava ao apertar de um botão.

Igualzinho a um de verdade e bem barato nos camelôs. Um profissional que enfrenta tantos perigos deve sempre contar com todos os recursos para se safar.

Foi até à estante e começou a retirar livros. Espalhou-os sobre a escrivaninha, pegou seu papel de luxo e sua caneta-tinteiro e começou a rabiscar.

Algum tempo depois, ele organizou os seus achados e os estudou com muita atenção. Dando-se por satisfeito, foi dormir e teve sonhos muito bons.

Na noite seguinte, ele ouviu passos e cochichos no corredor, que cessaram até serem pontualmente as oito e dezessete. As palavras então bateram à porta e foram convidadas a entrar.

Encontraram o detetive à espera e se sentaram à sua frente, ansiosas.

Ele começou a falar como se não tivessem sido interrompidos na noite anterior de forma tão espetacular:

– Como eu ia dizendo, Dona Mosca, uma raiz Indo-Européia mu-, provavelmente derivada do zumbido desse inseto, acabou dando musca em Latim. Esta palavra virou mosca em Português e Espanhol e, muito industriosa, se prestou para diversas acepções.

Por exemplo, devido ao tamanho, forma e cor do inseto, passou a querer dizer “sinal, pequena mancha na pele”. Pelo mesmo motivo é o nome dado a um pequeno tufo de barba usado logo abaixo do lábio inferior.

Relacionado com esse aspecto, temos a palavra moscado, sinônimo de mosqueado, “cheio de pintinhas pretas”, como se se tratasse de um objeto recoberto por esses insetos.

Também se chama assim o centro de um alvo, por ser pequeno.

Falando em tamanho, há certos tipos de mosca que, por serem maiores que as outras, levam o nome de moscardo. Também na rubrica “tamanho”, peso-mosca é uma categoria de pugilista em torno dos 50 quilos de peso.

Em Medicina existe um sintoma chamado muscae volitantes, “moscas esvoaçantes”, que consiste em enxergar manchas ou cintilações e faz pensar em oxigenação cerebral deficiente.

Sendo esse um inseto cosmopolita e muito ativo, ele gerou diversos ditados e expressões. Um deles é o latino Aquila non captat muscas, “A águia não pega moscas”, que quer dizer que uma pessoa num cargo muito elevado não pode se preocupar com o que é insignificante.

Outro é Comer moscas, que descreve uma pessoa tão atarantada ou incapacitada que é capaz de ficar de boca aberta, sem perceber que os insetos estão entrando por ali.

Há umas palavras parecidas, mas que não têm a mesma origem. É o caso da noz-moscada. Esta última parte da palavra vem do Grego moskhos, “espécime jovem da espécie humana, mas principalmente da bovina”.

Essas duas letras -kh- tentam dar a idéia do som da letra chi em Grego, um som que não existe em nosso idioma, e que é como o do -ch– alemão. Por falta de representação adequada em Latim, acabou soando mesmo como -k-.

Em Latim a palavra passou para muschus, de onde derivou para uso no caso de um animal específico, o almiscareiro, moscado ou mosco. Como este animal tem uma glândula que produz uma substância, o almíscar, usada em perfumaria como fixador, palavras parecidas começaram a designar coisas que produzem odores marcantes.

Daí o nome da uva e do vinho moscatel: é um diminutivo da palavra moscato, “moscado”, com o sentido de “perfumado”.

As palavras estavam mudas, ouvindo aquele derramar de sabedoria. O detetive se voltou para outra:

Quanto à senhora, dona Pera, sua origem está no Latim pirum. A senhora tem outros significados devido ao seu formato.

A palavra, incomodada, pensou mais uma vez que deveria fazer a lipoaspiração que se estava prometendo há tempos. Mas não deixou transparecer nada.

O seu nome é usado para designar certos interruptores elétricos por causa disso. Pelo mesmo motivo são chamados assim os dispositivos de borracha com válvula que a gente usa para transferir ar ou líquidos em aparelhos, como aquele que os doutores usam para medir a pressão arterial.

Curiosamente, seu nome também é usado para uma pequena porção de barba mantida na extremidade do queixo. Logo, a senhora e Mosca têm uma relação casual com os barbeiros.

Agora era a vez de Vela.

– A senhora vem do Latim vellum, “tecido, pele, véu”. Como as velas dos barcos da antigüidade eram de tecido, a palavra passou a designar o equipamento que se pendurava das vergas para captar o vento que movia as naves.

A palavra vela podia nomear também os próprios barcos. Dizem que a beleza de Helena de Tróia “moveu mil velas”, já que essa seria a quantidade de barcos gregos que partiu para a guerra.

A expressão Desfraldar velas significa “partir”. Dar velas à imaginação é uma bela expressão para dizer que alguém se deixa levar pela criatividade.

Esse sentido de “véu, cobertura, pano” foi usado no verbo velar, que quer dizer “cobrir, tapar, disfarçar como com um véu”.

vela como “cilindro de cera com pavio, usado para iluminar” deriva do verbo velar com outro sentido, um sentido relacionado com o verbo latino vigilare, “vigiar”.

Este verbo vem do Indo-Europeu weg-, “estar atento, ser forte, vivaz” e do Sânscrito vaja-, “velocidade, força”.

Daí o verbo velar usado para “cuidar, ficar acordado, vigiar”. E daí velório, quando as pessoas vigiam por algum tempo o corpo daquele que partiu.

A vela como fonte de luz originou, por semelhança de forma e, principalmente, de função, o nome da vela dos motores à explosão, já que ela emite uma faísca quando em atividade.

A forma e a cor, mas não a função, foram lembradas para designar a vela do filtro, aquele cilindro de substância porosa que é usado para retirar impurezas da água.

Velar um filme significa expô-lo a uma luz forte e queimar as imagens registradas. Se for de perto, até a luz de uma vela serve. Existe até a frase “Fulano velou o meu filme”, querendo dizer que ele trouxe algum tipo de prejuízo, geralmente de reputação, ao que fala. Com a invasão das câmeras digitais, é possível que esta frase desapareça em algum tempo. Talvez vire “Fulano estragou o meu cartão de memória” ou coisa parecida.

X-8 parou de falar e se levantou. As palavras perceberam que a sessão cultural estava terminada. Levantaram-se para sair, naturalmente depois de pagarem os honorários detetivescos. Antes de chegarem à porta, Mosca se virou para trás e perguntou, timidamente:

– Ãããh…o assunto de ontem correu bem, espero? Não vimos nada no jornal nem na TV…

O detetive pareceu hesitar antes de responder:

– Nem verão. Não adianta procurar. Mas os responsáveis já pagaram pelo que fizeram.

Pêra disse, com um tremor na voz:

– Estão na cadeia?

X-8 disse, sua voz máscula demonstrando, nas entrelinhas, que era melhor elas não tentarem saber nada:

– Eu disse que eles pagaram por isso, não que foram presos. E agora, por favor, lembrem-se de esquecer o que aconteceu. Adeus.

As três palavras saíram, completamente arrepiadas.

Antes de deitar naquela noite, X-8 pensou que estava por nascer a palavra que fosse mais forte do que a sua criatividade.

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