Palavra carpinteiro

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Tia Odete, amo saber a origem de palavras parecidas. Hoje tenho duas: DÁLMATA e DALMÁTICA. Sua aluna “preferida” está ansiosa por saber de onde vêm. Se não for pedir demais, poderia também me deixar a par de CARPINTEIRO, XALE, CHALÉ e PRESTIDIGITADOR?

Sabe me dizer se o pessoal da Redação lê os e-mails que a gente envia?

Resposta:

1) Referente à Dalmácia, região junto ao Mar Adriático, cujo nome veio da tribo dos DALMATAE, antigos habitantes.

2) De “dálmata”, numa referência à roupa usada na região acima.

3) Do Latim CARPENTARIUS, “fabricante de carros”, de CARPENTUM, “carro de duas rodas”, do Céltico antigo CARPENTOM.

4) Do Persa SHAL, espécie de cobertura para  a cabeça. Há quem diga que o nome se deve à cidade de SHALIAT, na Índia, onde a peça era manufaturada inicialmente.

5) Do Suíço-Francês CHALET, “cabana alpina, choça de pastor”, possivelmente do Latim CASALIS, “relativo  uma casa”, de CASA, “cabana, casa pequena”.

6) Formado a partir do Latim PRAESTO, “pronto, disponível”, mais DIGITUS, “dedo”.

Sim, quem estiver na Redação lê os e-mails, pois esse é o nosso trabalho.

 

Ferramentas

Ao chegar no pátio da casa de meu avô, descobri-o lidando com umas madeiras das estantes de livros que ele estava consertando.

– Aí, hein, Vô, trabalhando de carpinteiro para fazer uma graninha? – disse eu.

Ele, tentando ocultar que estava contente de me ver, respondeu, sério:

Marceneiro, seu inculto. Carpinteiro é quem trabalha em estruturas, em obras pesadas, e vem do Latim carpentarius artifex, “o que lida com carros”, de um tipo de carro de tiro animal chamado carpentum, nome de provável origem celta.

Marceneiro é o sujeito que lida com madeira para fazer móveis, objetos pequenos, decorativos. Parece que deriva de mercenarius, “o que trabalha por dinheiro, a contrato”, de merx, “material à venda, mercadoria” .

– Hum, o senhor está com toda a corda hoje, não?

– E quando não estou?

– Então conte-me qual a origem do nome dessa ferramenta que o senhor está segurando, já que não vou ter escapatória mesmo – falei, revirando os olhos, com cara de quem não estava interessado no assunto.

– Vou falar; sempre há uma esperança de que até as mentes mais obtusas aprendam algo – nós gostávamos de inticar um com o outro.

Mas antes, vou explicar porque estas coisas se chamam de ferramentas: em Latim, ferramenta é uma palavra plural e quer dizer “conjunto de instrumentos de ferro”.

O nome deste martelo que estou segurando vem do Latim martellus, que viria de malleus, “martelo”.

E o nome do prego que ele enfia na madeira vem do Latim plicare, “dobrar, enroscar”, dada a noção de que ele como que se “enrosca” na madeira e passa a fazer parte dela.

Particularmente,acho que tem a ver também com o péssimo hábito de os pregos se dobrarem quando a gente bate neles com o martelo. Pelo menos quando sou eu quem está batendo.

– Já que falamos nisso, e o parafuso, Vô?

– Sua origem não é bem definida; parece vir do Latim fusus, “objeto alongado e cônico, fuso”.

– Outra coisa em que se bate é isso ali, como é o nome mesmo?

Formão. Esta palavra vem do Latim forma, “aspecto, aparência, molde”. A ferramenta servia para dar forma a coisas, daí o nome.

Outra coisa em que se bate com o martelo é o punção. O, ouviu? É um substantivo masculino. Serve para fazer furos em diversos materiais e vem do Latim pungere, “furar”.

E olhe aqui: esta serra já se chamava exatamente assim em Roma. Por semelhança, chamamos uma cadeia de montanhas, com o aspecto denteado dos seus picos, de serra também.

Há tipos diferentes de serra mecanizados, como a circular porque a lâmina é redonda, a de fita porque sua lâmina é longa, estreita e se dobra, a tico-tico

– Porque os tico-ticos a usam para fazer seus ninhos?

– Se eu não fosse ter problemas com a lei, eu a usaria para cortar seu crânio para espiar o aterrorizante vazio que há dentro.

Esse nome,seu espertinho, vem do fato de que a serra se move para diante e para trás, como a cabeça de um passarinho dando bicadas nas minhocas.

– Ah, tá, Vô, mas mudemos de assunto; conte-me de onde vem o nome do alicate, ali. É verdade que foi inventado por um Árabe chamado Ali Kate?

– Sua gracinha até passou mais perto do que você pensava, pois vem do Árabe al-liqât, “tenaz”.

– E a tenaz mesmo?

– Vem do Latim tenax, “o que agarra”, do verbo tenere, “pegar, segurar”, mas usado também com o sentido de “incomodar, aborrecer, torturar”.

Certos netos que incomodam, aborrecem, torturam pobres avôs indefesos deveriam ir para a cadeia.

– Indefeso o senhor, é? Tá bom, diga-me então de onde vem torquês.

– Do Latim torquere, “torcer”, pois é para isso que se presta.

– Hum. E aquelas coisas para alisar madeira que estão ali?

– Começamos pela grosa, que provavelmente vem do Latim crassa, “grossa”, pois é uma lima de dentes grandes, para iniciar o trabalho numa madeira que se apresenta muito irregular.

É interessante saber que existe um número que corresponde a doze dúzias – desde já digo que isso dá cento e quarenta e quatro, para você não forçar a frágil cabeça – e que parece derivar também de crassus, na acepção de um número “gordo”.

Depois dela temos a lima, que apresenta uma ação mais delicada e se chamava assim mesmo em Latim.

E ali estão as lixas, para cujo nome há várias explicações, ou seja, nenhuma é de confiar.

Ali no canto está uma gazua, ou pé-de-cabra. O primeiro nome vem do Espanhol ganzúa, mas antes disso não se sabe a origem. E o outro é óbvio, pois lembra o pé bifurcado de uma cabra.

Mas vamos encerrar por hoje; volte amanhã que já terei terminado minhas tarefas e vou poder contar mais sobre estes nomes.

Resposta:

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