Palavra carta

TIA ODETE VAI AOS CORREIOS

  

 Boa tarde, caro senhor. Por acaso poderia me dizer onde fica a agência dos Correios? Ah, bem aqui em frente, veja só. Na verdade eu já sabia, mas foi a maneira que encontrei para fazer contato e lhe dizer que essa palavra veio do Espanhol correo, que por sua vez veio do Provençal corrieu, “mensageiro”, do Latim currere, “deslocar-se rapidamente, correr”.

Muito obrigado pela informação. Agora vou subir essa alterosa escadaria e entrar… ah, como é que eu me afastaria de tão gentil pessoa sem contar que correspondência, aquilo que é transportado pelos correios, não tem a mesma origem?

Essa palavra deriva do Latim correspondere, que originalmente queria dizer “estar em harmonia, em concordância com”, e era formada por com-, “junto”, mais respondere, “responder”. Foi só no século XVII que ela começou a ter também o sentido de “comunicar-se através de cartas”.

Novamente agradeço sua gentileza e vou subindo… subindo…

Boa tarde, meu senhor! O senhor pode me informar se aqui é a agência dos Correios? É mesmo? Certeza absoluta? Bem que eu desconfiava. Para retribuir a sua polidez, vou colher a ocasião e lhe ensinar que a palavra  carteiro, pessoa fundamental para este serviço, vem de carta, do Latim charta, “folha de papel”, inicialmente “folha de papiro”. 

Em Grego se dizia khartes, “folha de papiro”, provavelmente de origem egípcia.

Pelo ar ligeiramente abobalhado que o senhor apresenta perante estas informações posso ver que um pouco mais de cultura lhe faria bem.

Destarte, vou contar que aquilo que costuma acompanhar uma carta se chama envelope porque o nomezinho veio do Francês enveloppe, derivado do verbo envelopper, “dobrar, recobrir, revestir”, formado por em-, “em”, mais o Francês arcaico voloper, “envolver”, provavelmente de origem celta.

Outra coisa que acompanha uma carta e sem a qual ela não anda é o selo, cuja origem é o Latim sigillum, “pequena figura, figura entalhada, sinal”, diminutivo de signum, “marca, sinal”.

Outrossim, meu senhor, veja que os sinais de trânsito e os selos aqui vendidos têm a mesma origem, não é coisa de louco?

Não vá se confundir e tentar colocar uma placa de trânsito numa de suas cartas. Ah, ah, essa é boa, não é mesmo?

Nossa conversa está muito animada. Mas, por mais que me doa me despedir de tão interessante interlocutor, vou entrar na fila para comprar meu selinho.

Boa tarde, minha senhora, que está colocada logo à minha frente, a senhora também está aqui para postagem de cartas, conforme deduzo das cartas sem selo que a senhora leva na mão.

Eu também, mas não pense que sou uma velhinha antiquada, não. Sou professora, comunico-me muito por computador, mas esta correspondência vai para minha tia Eufrásia, que ainda não entrou na era digital.

Já que ambas vamos postar cartas, não será demais lembrar que essa palavra veio do verbo latino ponere, “colocar, pôr”, que virou depois postum, “local designado a uma pessoa para cumprir um dever”, “estação de muda de cavalos de tração de veículos”, por onde passava também a correspondência.

Vejo que seu olhar, espantado, vagueia ao redor. Pode ser que a senhora esteja procurando alguém para perguntar a origem de outra palavra relacionada, como mensagem. Não precisa procurar, já achou.

Modestamente devo dizer que ensino Etimologia para crianças de Maternal numa escolinha e que os pequenos demônios aprendem um bocado comigo.

Portanto, estou credenciada e apta a lhe dizer que a palavra que eu pensei que a senhora pensou veio do Latim medieval missaticum, de missus, particípio passado de mittere, “enviar, lançar”.

Veja como isso reflete a realidade, pois uma mensagem é sempre enviada para lugares que não podemos alcançar com a voz nem com sinais de bandeiras.

E se a senhora pensou que há aí uma estranha semelhança com a missa, saiba que não é estranha nem coincidência. Esta veio da frase latina dita no finzinho dessa cerimônia religiosa, Ite, missa est, ou seja, “ide, estão enviadas” – no caso, as vossas orações.

Boa tarde, meu caro jovem que se coloca atrás de mim nesta fila! Pela sua idade percebo que você deve ser um dos incluídos digitais desde criancinha. Mas já pensou o que quer dizer e-mail, isso que você envia todos os dias para combinar onde vai encontrar os amigos naquela noite para beberem até cair e ficar com amnésia e dizer que acharam muito bom?

Essa palavrinha foi criada em 1982 e é um encurtamento do Inglês electronic mail, “correio eletrônico”, já que nossa mensagem é transmitida por ares e mares através dessa impalpável via.

Ela transita pelos caminhos da Internet, palavra que você usa, aposto, sem se lembrar que vem de inter, “entre”, mais o Inglês network, usado em relação a computadores desde 1972. Mas não pense que a palavra é nova, não; já em 1560 ela era usada.

Claro que não em relação a computadores, ah, ah, essa é boa, não senhora à minha frente na fila?… Ué, ela passou para aquela outra fila lá adiante, bem maior do que esta, por que será?

Bem, ela deve ter seus motivos.

Mas eu ia lhe dizendo, meu caro jovem, que inicialmente network se usava para designar qualquer entrelaçamento – net, “teia” – de fios ou material semelhante, como, digamos uma rede de canais se apresentaria num mapa.  Depois o significado se estendeu para outras coisas.

Ah, você teve uma súbita vontade de ir ao dentista? É uma pena, meu jovem, pois esta nossa conversa estava ficando muito interessante.

Boa tarde, senhora funcionária! Por favor, gostaria de comprar selos para esta cartinha e aproveitar para lembrar que antigamente, quando a gente tinha pressa, em vez de enviar uma carta usava o telegrama, que era mais caro, mas muito mais rápido, e que assim se chamou a partir de uma palavra inventada em 1852, formada pelo Grego tele-, “longe”, mais gramma, “letra do alfabeto”, da mesma raiz de graphein, “desenhar, escrever”.

Portanto, a gráfica que imprime os folhetos de duvidosa utilidade que são distribuídos nas ruas e o telegrama que seus pais enviavam têm a mesma origem. O que é a Natureza, não?

Obrigada pelo selo, mas preciso pagar! Ah, é cortesia da casa e a senhora está atrasada para o almoço? Bem, muito obrigada então, mas não era necessário…

Puxa, ela almoça recém às quatro da tarde. Deve ser por isso que saiu correndo desse jeito, há de estar com muita fome, coitadinha da moça.

Boa tarde, meu senhor! Pode me informar se esta é a porta de saída desta agência?…

Resposta:

Mochilinhas

Ai. Cena dantesca em minha sala de aula. Crianças aos gritos,dando socos em quem passar perto, puxando os cabelos umas das outras, escoiceando, atirando cadernos e lápis, pulando, berrando e dando risadas.

Valei-me São Benito que vou ter um faniquito. Santo Antenor, livrai-me deste horror. Santo Anspeçada, desaparecei com esta criançada. São Fernando, devolvei-me o controle deste bando.

Aqui, cri-an-ças! Vamos para de bater uns nos outros fazer uma roda aqui no chão e tentar descobrir o que foi que gerou este verdadeiro espetáculo do Circo Romano, aquele onde os lutadores se entrematavam para gáudio do público.

Hein? A Patty quis ver o que a Valzinha levava na mochila, aí esta achou ruim porque ali havia uma revistinha da tia dela que ela tinha prometido prô Joãozinho e achou que a Patty não podia saber dessas coisas e por isso a empurrou…

Bem, bem, ajeitem suas roupinhas e cabelos que a Tia Odete vai contar para vocês a origem de mochila. Esta palavrinha vem da época em que os escravos romanos, para não poderem passar por pessoas livres, tinham o cabelo raspado. Por isso eram chamados de mutilus, “mutilados”, já que tinham perdido uma parte do corpo.

Como muitas vezes eles andavam para lá e para cá levando às costas um saco de tecido com as compras do patrão, este começou a ser chamado de mutilus.

Como, Ledinha? O saco, não o patrão.

Depois de passar pelo idioma Basco, esse objeto para carregar material passou a se chamar mochila. Interessante, não?

Isso nos leva ao nome genérico de bagagem. Tal palavra nos veio do Francês bagage, de bague, “trouxa, atado, fardo”, de uma fonte escandinava que originou também a palavra bag, “saco”, em Inglês.

As bagagens costumam ser transportadas em malas, que também têm seu nome derivado do Francês – será que eles viajavam mais que os outros? – malle, “saco de couro”, do Frâncico malha, “saco para viagem”.

Sim, Aninha, maleta vem de mala, é o seu diminutivo. Menina esperta, essa! Que faro mais fino! Se se dedicasse mais ao estudo e menos à bagunça…

E, já que você falou nisso, podemos lembrar a valise, que vem do Italiano valigia. Como, em Espanhol, mala quer dizer “má”, a palavra que se firmou neste idioma para a mala de viagem foi valija, derivada do Italiano.

Um processo menos sofisticado de levar as coisas necessárias para uma viagem era colocar tudo num saco de qualquer material. Tal palavra vem do Latim saccus, do Grego sakkos, do Hebraico saq, todos com o mesmo sentido. Joãozinho, fique quieto.

Falando nisso, uma coisa que nós meninas não dispensamos ao viajar é a nossa nécessaire, uma bolsinha que os homens acham um absoluto mistério. Ali a gente leva as pinturas, os aparelhos de cuidar das unhas, os perfumes, todas essas coisas maravilhosas que os fabricantes nos dizem que vão atrair o Príncipe Encantado ao primeiro olhar ou à primeira fungada na nuca.

E, por mais que isso nunca aconteça, nós sempre acreditamos e compramos todas aquelas coisas para botar dentro. As esperanças nunca morrem!

Essa palavra francesa veio do Latim necessarius, “o que é indispensável”, literalmente “o que não tem volta”, de necesse, formado por nec, “não”, mais cedere, “recuar, ir embora”.

Também usamos uma bolsa para colocar nossas coisas dentro. Esse nomezinho veio do Latim pursa, idem, do Grego byrsa, “couro, pelego”.

Dentro dela colocamos o moedeiro, cujo nome evidentemente vem de “moeda”, e a carteira, que por incrível que pareça deriva mesmo de carta.

Não é assim, as cartas não ficavam amassadas porque no início as carteiras eram receptáculos grandes de couro que se usava para proteger a correspondência. Mais tarde elas foram encolhendo, até passarem a ser usadas para guardar dinheiro, entenderam?

Hum, o sinal do fim das atividades. Obrigada, Santa Paula, por termos chegado ao fim da aula.

Peguem as mochilinhas e não se metam mais no conteúdo das alheias.

Resposta:

Cartas

Não  faz muito tempo que os habitantes de cidades maiores escreviam cartas para amigos dentro da mesma cidade, até porque os telefones eram escassos. Naturalmente,essa necessidade se expressou em diversas palavras, algumas das quais vamos estudar.

CARTA – vem do Latim charta , “folha para escrita, tablete”, do Grego khartes, “folha de papiro”, provavelmente de origem egípcia. Assim,”carta branca” atualmente significa “liberdade para fazer o que a pessoa bem entender numa área, sem se reportar a outrem”. Desta forma, as condições de entrega de uma praça forte ou corpo de tropas eram definidas por quem tinha vencido o encontro.

EPÍSTOLA – nem todos sabem, mas é sinônimo exato de carta. Vem do Latim epistola e Grego epistola, “carta, mensagem”, do verbo epistellein,”mandar, enviar”, formado por epi, “a, para”, mais stellein, “enviar”.

BOLETIM – este conjunto breve de informações deriva do Italiano bulletino, diminutivo de bulletta,”documento, papel para votação”, por sua vez um diminutivo de bulla. Esta palavra ficou mais popular a partir das guerras napoleônicas, designando “despacho da frente de batalha para informação do público”. O selo no envelope recebe um carimbo que o recobre parcialmente, num ato chamado cancelamento. Isso é para que os espertos não possam retirar o selo e usar na carta de resposta. Isso era feito por um ato chamado cancellare, “fazer um traçado como de uma grade”, que no Latim vulgar passou a significar “anular algo escrito por meio de traços, riscar por cima”. O fato de o correio ser organizado ao longo de postos onde havia cavalos para troca rápida levou esses serviços a se chamarem poste em Francês, posta emItaliano, post em Inglês.

CORREIO – vem doLatim currere, “deslocar-se com pressa, correr”, que era a forma de fazer as cartas chegarem mais cedo na época do correio a cavalo ou de veleiro. CORRESPONDÊNCIA  –  pode parecer que vem da palavra acima, mas não é o caso. Vem de ” co-“, “junto”, mais “responder”. E esta vem de uma raiz Indo-Europeia spend, “fazer um brinde”. Seu significado se estendeu para “garantia” e acabou gerando respondere, “afiançar,atender a um chamado, enviar uma carta em conseqüência de outra”.

COMUNICAÇÃO – é do Latim communicatio, “ato de repartir, de distribuir”, literalmente “tornar comum”, de communis, “público, geral, compartido por vários”. É parente de “comunhão”. NOTÍCIA – do Latim notitia, “informação, conhecimento, ser conhecido”, de notus, “ser conhecido,famoso”, do verbo gnoscere, “vir a saber, tomar conhecimento”, derivado do Indo-Europeu gno, “saber”.

DATA – normalmente se coloca o dia em que se escreveu a nota, carta, despacho, etc. no início do escrito. Essa palavra vem da expressão que os romanos usavam, por exemplo, Data Romae kalendas Januarii, “dadas (escritas, feitas as letras) em Roma a 1º de janeiro”. Com o desuso do Latim, essa palavra inicial foi tomada como significando “ocasião definida no tempo”.

Resposta:

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